segunda-feira, dezembro 31, 2007

31 do 12?... E foi Dezembro!

E foi Dezembro - Luis Represas
***
E foi Dezembro. Dito em tua voz. Que as minhas mãos colheram devagar. E foi Dezembro. Escrito quando a sós tudo disseste quase sem falar. Foi um palco vazio a acontecer. No frio que se ergueu dentro de nós. Uma distância. O mar que se estendeu. A separar da minha a tua mão. E foi Dezembro. Inteiro. A anunciar a solidão dos dias por nascer. E foi Dezembro. À chuva. A reviver as pedras. E os rios. E os luares. Os nomes que vestiam os lugares. E os sonhos repartidos que não fomos. A coragem nascida de aceitar a verdade de ser o que hoje somos. E foi Dezembro. Vivo na roseira. Despida no silencio do jardim. E foi Dezembro. Ainda na cegueira das asas de uma ave que há em ti. Foi um tempo de amantes a aprender que não deve esquecer-se o verbo amar. Ou um inverno. Apenas. A perder-se da primavera do primeiro olhar.
* * * * * * * * * * * *
(Doze passas por doze não escusados Dezembros em 2008!)

domingo, dezembro 23, 2007

(Tenho para mim que...)

Os Búzios - Ana Moura

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Are you anybody's favorite person?

... tenho-me perguntado.

sábado, dezembro 08, 2007

Actualização

...mas torces o nariz e lá se vai o sol...

domingo, dezembro 02, 2007

Discos Pe(r)didos

Meu caminho é cada manhã / Não procure saber onde estou / Meu destino não é de ninguém / E eu não deixo os meus passos no chão / Se você não entende não vê / Se não me vê não entende / Não procure saber onde estou / Se o meu jeito te surpreende / Se o meu corpo virasse sol / Se minha mente virasse / mas só chove e chove / Chove e chove / Se um dia eu pudesse ver / Meu passado inteiro / E fizesse parar de chover / Nos primeiros erros / Meu corpo viraria sol / Minha mente viraria sol / Mas só chove e chove / Chove e chove

sexta-feira, novembro 02, 2007

"With every waking breath I breathe, I see what life has dealt to me"


... o amanha é sempre uma descoberta fascinante, repleta de cheiros, de cores, de emoções, de vida.
Não tenhas medo de não ver o que está depois das tábuas; o mar que hoje é revolto amanha é calmo e sereno, com um caminho bonito e único, ali, descoberto para ti e para esse coração doce e sereno que tu tens.
Respira e sente quão agradável é cada sensação por que passamos na longa estrada ...
P.G. (*)
=)

segunda-feira, outubro 29, 2007

Acção de Graças

Gosto quando a moleza própria do cansaço típico dos fins dos dias que, alegremente, cansam me embala a escrita. É sempre sinal de que fui tirando o melhor de cada uma das partes do todo em que me dei com os outros. Ter-Te sempre tão perto a ponto de sentir-Te a mão que me impele para diante para que dê os passos e tome as decisões.
Hoje agradeço porque “nada é coincidência, tudo é providência”e por chegar a ser impressionante a forma como Fazes suceder os sinais, elucidar as pistas e iluminar os caminhos. Por quem segue comigo longe, perto e assim-assim. Pela dose extra de energia compatível comigo, pelas surpresas feitas amigos que já faziam falta. Porque sempre que passamos por achar que não há para onde ir nem que fazer, porque nem sempre sabemos bem quem somos nos mundos tão grandes e frios onde a missão-vocação de cada um exige que estejamos, Pões sempre, em nós, qualquer coisa que nos faz querer… querer ser alguém. E aí a Vida deixa de poder parar, a viagem é sem regresso e vamos como ventos: com tudo para dar, sem tempo a perder e a saber que podemos e vamos chegar onde Tu nos queres levar.
Obrigada pelas caras novas e pelo acolhimento. Senti-me num grande e apertado abraço cor azulorbis. Obrigada pelos exemplos de dedicação e de esforço despretensiosos, pela fonte de Amor que brotou hoje no meio da cidade que ficou, há pouco e por pouco, para trás. Por me Renovares a vontade de “me consumir como vela que arde no altar, consumir de Amor. Só por ti, Jesus”. Por querer ser aquilo que Queres e saber que “sozinha eu não posso mais viver”.
“Juntos podemos e vamos mudar o Mundo” é a única frase que, repetida insistentemente, não se gasta nem se desvanece. Queiramos nós!
Amén.

domingo, outubro 21, 2007

Dia Mundial das Missões


TODOS EM MISSÃO

Onde quer que estejas. Seja qual for a tua idade e profissão. Cultives os sonhos e projectos que cultivares. Tenhas as aspirações que tiveres. A missão é a força dinâmica da vida a que estás chamado.
Estar em missão é sentir a urgência do amor com que Deus ama o mundo. É deixar-se envolver por Jesus Cristo na sua paixão pela humanidade. É viver em sintonia com o Espírito que, de forma irreversível, quer suscitar em nós um “coração novo” e renovar a face da terra, suas estruturas e organizações.
Há ainda muito a fazer. Há horizontes a prosseguir, caminhos a percorrer, iniciativas a promover.
Os problemas parecem maiores do que os esforços empreendidos. Só a fé alicerçada no amor alimenta a esperança num mundo melhor, numa sociedade digna da condição humana, numa Igreja que, graças ao Espírito Santo, permanece fiel ao mandato de Jesus Cristo e o prolonga no tempo por meio de nós.
A coragem de evangelizar é a medida do amor. Agir com o coração em benefício de todos, sobretudo dos mais necessitados. Dando e recebendo o que há de melhor na vida: Colaborar com Deus no projecto de salvação; estar disponível para a missão, pronto para servir sem hesitação, firme na convicção.
Esta é a fonte da nossa alegria. Esta é a razão da nossa maior responsabilidade. Colaborar com Deus para que Jesus realize a sua obra e todos possam descobrir e apreciar o amor com que somos amados.
Então, encher-se-ão de brilho os olhos da humanidade inteira, de contentamento os corações amargurados, de alimento os estômagos atrofiados, de esperança as aspirações silenciadas, de harmonia o universo, liberto de tudo o que desumaniza e aberto à plenitude que, sorridente, nos atrai à família dos filhos de Deus reunidos à mesa do Pai comum a celebrar festivamente a sua vida em família.
O serviço à missão reveste muitas e atraentes modalidades. Umas já estão experimentadas com êxito, outras terão de ser criadas pela “fantasia da caridade”. É o desafio que o Espírito nos faz por meio das situações provocantes que exigem soluções concretas
A oração é o primeiro e principal contributo missionário. É tempo de rezar mais e, sobretudo, melhor. Procurar a sintonia e o ritmo do coração de Cristo. Escutar o desabafo que sempre nos segreda: Vim para que tenham vida em abundância. Ide até aos confins da terra e comunicai esta boa nova a todas as pessoas que Deus ama. A vós, a ti confio esta missão, fruto do meu amor e prova da tua fé.

Pe Georgino Rocha
Obrigada Karina!

quinta-feira, outubro 18, 2007

Enquanto houver.

Enquanto houver um sorriso
Enquanto houver um fascínio
Vento a soprar-nos na cara
E a roupa a tocar na pele
Enquanto houver companhia
Nos avessos do caminho
Podem rasgar-nos a alma
Que há-de sobrar poesia
Enquanto lançarmos sonhos
Com a força da maré
E desvendarmos o mundo
Entre incertezas e fé
E as coisas oscilarem
Ao segredar-se uma jura
Podem rasgar-nos alma
Que há-de sobrar a ternura
Enquanto houver um disparo
Que rompa um silêncio vão
Enquanto o tempo doer
Ao escorregar-nos das mãos
E trocarmos a desculpa
Pela culpa da verdade
Podem rasgar-nos a alma
Que há-de sobrar-nos vontade
Letra: Mafalda Veiga

sexta-feira, outubro 12, 2007

Das coisas que Deus me deixa ditas atrás das orelhas.

Hoje estava capaz de sair por aí. Meter a quinta, não sair dela e, desassossegada, largar a procurar, do vento e do salitre, o que de um faz com que o outro se cole ao cabelo e à pele, arrefeça as pálpebras e salgue mais as lágrimas.
Porque, por hoje, carente, procurava com exaustão o afago num gesto, o abraço no enleio de uma aragem soprada com mais força, o conforto num ninho improvisado entre pedras, a acalmia do mundo, por esta hora, a perscrutar alguma esperança, o meu ansiado sentido num astro caído com rumo predestinado, o meu futuro. O que preciso, agora, neste Teu acalento universal.
Hoje quero para mim muito mais do que o que tenho. Quero-me mais do que a mim só. Quero-me a mim Contigo a baralhar as leis da Vida e a fazer crescer, sem ver-lhes depois as mãos, os meus braços. Quero retribuir, no inadiável hoje, o Amor que me tens. Adubar o coração, porque também precisa, e esticar infinitamente a vontade que tenho de Ti.
Quero a graça de um colo onde caiba o Mundo e a exiguidade de uma testa que deixe que Te sobeje o ombro.
Quero-me ao lado, alada, colada. Comprometida, incontida e desmedida.
Sempre.

domingo, setembro 30, 2007

A propósito.

Elogio do Amor
Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.Hoje em dia aspessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.
Miguel Esteves Cardoso, in Expresso

quarta-feira, setembro 19, 2007

"Isso é o jeito (...) de enganar o tempo."

Quando a hora dobra em triste e tardo toque / E em noite horrenda vejo escoar-se o dia, / Quando vejo esvair-se a violeta, ou que / A prata a preta têmpora assedia; / Quando vejo sem folha o tronco antigo / Que ao rebanho estendia sombra franca / E em feixe atado agora o verde trigo / Seguir o carro, a barba hirsuta e branca; / Sobre tua beleza então questiono / Que há de sofrer do Tempo a dura prova, / Pois as graças do mundo em abandono / Morrem ao ver nascendo a graça nova. / Contra a foice do Tempo é vão combate, / Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.

William Shakespeare

sábado, setembro 15, 2007

[Só por hoje] Procuro o lento cimo da transformação.

Procuro o lento cimo da transformação
Um som intenso. O vento na árvore fechada
A árvore parada que não vem ao meu encontro.
Chamo-a com assobios, convoco os pássaros
E amo a lenta floração dos bandos.
Procuro o cimo de um voo, um planalto
Muito extenso. E amo tanto
A árvore que abre a flor em silêncio.


Daniel Faria

segunda-feira, setembro 10, 2007

(Ainda) Santiago de Compostela

Faltavam os últimos dez quilómetros da nona e última etapa do caminho que, por fim, nos levava a Santiago de Compostela. Depois de tirada a fotografia junto ao marco que indicava estes últimos dez mil e poucos metros, entre outros peregrinos que se foram fazendo amigos ao longo do caminho, tomei consciência da dimensão que tomava aquela contagem decrescente de distância e de emoções.
Era dia 27 de Agosto, uma segunda-feira de sol quente, mas quente como ainda não se tinha feito sentir durante todo o restante caminho.
Já tínhamos caminhado oito dias e meio, o que por esta altura já deixava antever que à semelhança do que acontecia com os últimos quilómetros de cada etapa passada, os últimos quilómetros do derradeiro dia seriam percorridos num misto de ansiedade e de dor - porque dói muito - só aliviado pelas brincadeiras e acrobacias, pelas histórias e pelas canções, pela oração individual ou pela oração a três. E aos dez quilómetros da nona etapa, sem dar por mim, trauteava aquela música do André Sardet que diz “Para me encontrar / Procurei o meu lugar / E no fim estou mais perto de mim. / E na esperança de alcançar / Uma forma de mudar / Estou mais perto de mim.”. E estava. Como nunca antes estivera.
Fazer, finalmente, o Caminho de Santiago de Compostela, revelou-se a prova viva de que aliar os sonhos à persistência só pode resultar em coração cheio.
A 19 de Agosto, ainda o dia tinha apenas seis horas e catorze minutos, já eu, o João e o Ricardo, três jovens de Ílhavo, entravamos no suburbano que nos levaria à cidade do Porto, em cuja Sé iniciaríamos a peregrinação a que cada um se tinha proposto. Carimbadas as credenciais de peregrinos ainda intactas, já se afigurava diante nós a primeira das muitas setas amarelas que iriam nortear os nove dias seguintes.
Há já dois anos que idealizávamos, sonhávamos, avançávamos, recuávamos no “Camiño” e, finalmente, chegara a hora. À saída as palavras amigas e encorajadoras do Pe João, “Que Deus vos acompanhe e que o caminho vos transforme. Força.”, foram o mote.
Qualquer guia ou mapa, apesar de essenciais, qualquer testemunho ou tentativa de explicação daquilo que é fazer o Caminho de Santiago, reduzem à milésima parte o verdadeiro sentido do Camiño, porque como já dizia o poeta, “Caminhante não há caminho / O caminho é feito a andar.”. Neste sentido, a somar às dezenas de caminhos já trilhados e documentados, há os milhões de caminhos já percorridos, já que cada um que caminha, caminha por si o seu próprio caminho.
De outros testemunhos que procurei ir conhecendo, uma vez que na véspera de partirmos a sede de informação era insaciável, percebi em muitos a comparação inevitável entre o caminho e a própria Vida: as dificuldades do dia-a-dia, as tristezas, as desilusões, as metas, as ambições, feitas metáforas nas subidas intermináveis, no sol tórrido, no peso da mochila, na chuva, na trovoada, na alegria de finalmente chegarmos ao albergue, no banho quente e no banho frio, no colchão e no chão duro, na certeza de que na manhã seguinte teríamos pés para mais trinta quilómetros, no superar da etapa mais longa, na presença de amigos e familiares no início, a meio e no fim. Porém, fazer, efectivamente, o caminho dá também a outra perspectiva, aquela que se torna intraduzível no testemunho posterior: não só a Vida se revela um caminho mais ou menos penoso, como todo o caminho se apresenta repleto de Vida. E é assim que o Caminho de Santiago vale, sobretudo, pela presença viva de Deus numa listagem enorme de momentos, situações e pormenores que me custa arriscar enumera-los: há a Natureza e a Criação no estado mais puro, há a história dos lugares onde cada um faz história, há a experiência de grupo e a do Eu singular e único. Há a entreajuda, há a alegria, os sorrisos, as lágrimas e a oração fervorosa que brotam, espontaneamente, do sofrimento dos últimos quilómetros de cada dia. Há estranhos que se fazem amigos e histórias de Vida que extasiam. Há amigos e notas de gaitas de foles à chegada. Há cores e cheiros inebriantes. Há acolhimento, há discernimento, há a transmissão do segredo de um Caminho que afinal não termina em Santiago de Compostela, mas que lá começa, há já saudade das coisas que têm necessariamente que acabar, das pessoas que partem para voltar e daquelas que cruzaram o nosso caminho e que nunca mais veremos.
Há, afinal, a possibilidade imensa de nos maravilharmos, a cada instante e a cada passo, com a presença de Deus, em coisa e em cada Um.
Bon Camiño!

quinta-feira, agosto 30, 2007

Caminho de Santiago de Compostela


"Para me encontrar, procurei o meu lugar e no fim estou mais perto de mim. E na esperança de alcançar uma forma de mudar, estou mais perto de mim. Estou mais perto de mim, mais perto de mim"

André Sardet

segunda-feira, julho 23, 2007

Xomos p’la Xerra!


Xomos p’la Xerra e p’los xales de montanha. Xomos p’la qualidade de vida e p’las antenas de TêBê. Xomos p’los tectos inclinados e p’las escadas em caracol. Xomos p’las Xenhoras que não xão belhas e p’las aparixões. Xomos p’las queixeiras e p’los regatos de áuga. Xomos p’las tele-cadeiras baratinhas e p’las provas de prexunto e queixo. Xomos p’las giesteiras amarelas e p’los banhos txécos. Xomos p’los vales em Bê e p’la desglaciaxão. Xomos p’los rabos para o ar e p’los catálogos fotográficos. Xomos p’los parques infantis e p’los txácuzzis naturalmente sem áuga. Xomos p’los bindes melanxia e p’los cafés bué bué caros. Xomos p’la xôpa de espinafres e p’la inutilidade das varinhas mágicas. Xomos p’las xaladas e p’los rixóis. Xomos p’las coinxidênxias e p’la Prova Oral. Xomos p’la recentemente adquirida versão de ararutas com queixo da xerra e p’la procriaxão de luas. Xomos p’los eclipxes e p’los anéis brilhantes. Xomos p’la áuga a correr e p’los xocalhos das obelhas que por sinal pertencem a manadas. Xomos p’los aquexedores e p’las notas de xinquenta eurus. Xomos p’lo pão com xicolate e p’los votos de miséria dos franxixcanos. Xomos p’los amigos, xomos p’los microclimas e p’la mixa das sete. Xomos p’la Xara e p’lo Abraão que conxeberam em idade avanxada e por xinal coziam pão sem xicolate e vitelo axado. Xomos p’lo acolhimento!
Xomos um poucuxinho xerranos e gostamos!

Vá lá [suspiro]. Colabora! Só quero "(...) o riso, o amor, o gosto a sal, o sol do olhar."

Quisera roubar-te essas palavras e morrer / Trazer-te assim até ao fim do que eu puder / E começar um dia mais eternamente / Por te rever, só. / Pudesse eu guardar-te nos sentidos e na voz / E descobrir o que será de nós. / E demorar um dia mais eternamente / Por te rever, só. / Quisera a ternura, calmaria azul do mar / O riso, o amor, o gosto a sal, o sol do olhar / E um lugar pra me espraiar eternamente / Por te rever, só. / Pudesse eu ser tempo a respirar no teu abraço. / Adormecer e abandonar-me de cansaço / Quisera assim perder-me em mim eternamente / Por te rever, só .
Mafalda Veiga

terça-feira, julho 17, 2007

"Há coisas [fantásticas relacionadas com esse grande senhor da música portuguesa que é o José Cid] que só acontecem no Verão..."

Tudo a comprar! A "mãe do rock português" merece...
('Tou muito pouco inspirada. Ele vale por si!)
Férias... "Keep pushing!!!"... 'tá quase!

sábado, junho 30, 2007

Ao meu avô Fernando,

"Os nossos projectos / de outra mesa maior / mais me custam (...) quando a mesma exígua mesa / agora é uma mesa grande"
A mesa - José Craveirinha, Maria
...
Carrego no trinco, sem me esquecer do jeito sem o qual não abriria o portão grande e abro-o e entro. “O cão já conhece o motor do carro. Vá, faz-lhe lá uma festinha que o animalzinho também merece!”. E sem te ver ainda, neste lado do pátio, não é, de todo, difícil imaginar-te sentado no banco do alpendre, de chapéu de aba larga que te mandaram da América e camisa de flanela verde no pino do Verão. Partes nozes com um martelo na pedra de afiar as facas. Há uma semana atrás tinhas as mãos verdes de descascar favas porque sabes que eu gosto. E, então, penso que agora te entreténs com as nozes, com as favas, com os feijões, para não admitir que inventas nozes para partir, favas e feijões para descascar para estares, assim, sentado à mesa do alpendre, de olhos postos no portão, a esperar, ansioso, que por ele te irrompam netos. Festas feitas no cão, ponho mais entusiasmo do que aquele que sairia naturalmente num “É ‘vô! ‘Tão? ‘Tá tudo bem?”. E os olhos riem-se-te e “Antes de mais nada, ora vai ali ao aido e vê o que lá está!”. E eu vou sem perguntar mais, porque nos habituaste sempre a algo mais do que espantoso na sequência destas frases. Numa dessas vezes, tiraste a mão fechada de dentro de uma tangerineira, que secou há já um tempo, e quando a abriste aos nossos olhos esbugalhados de curiosidade, revelaste um gafanhoto tão grande, mas tão grande que nos custou um susto e um salto atrás. E rias-te. E nós riamo-nos a seguir, já ia longe o gafanhoto.
No fim do carreiro, onde acaba o muro de adobes, andas a estimar uma pequena parreira que, agora, carregada de framboesas, parece saída de um quadro. Confesso que já estava à espera e os olhos riem-se-te, outra vez. Este ano a cerejeira não deu cerejas e estás convencido de que foi por não ter sido neto rapaz a comer as primeiras do ano passado. “Dizem que as árvores ficam aneiras!”, seja lá isso o que for. Ora fico à espera que me mandes comer as framboesas, não vá para o ano não as haver.
Já dizes pela terceira vez que “isso andava atirado para aí e não dava nada e eu então espetei-lhe aí umas canas e olha: está carregadinha!” ao que eu respondo que “está tão linda com as framboesas que dá pena comê-las!”.
Soubesses tu do pouco valor que dou a framboesas e ficarias, certamente, bem triste.
Tens setenta e alguns anos e só agora parece que começo a acrescentar-tos. Sei lá eu porquê. Foste sempre assim e nunca te conhecemos menos velho. Desde que me lembro de ser gente contigo, as tuas mãos nunca foram menos ásperas nem o teu feitio menos previsível. Admirávamo-nos sempre que te víamos arrancar urtigas à mão, desfolhar as espigas de milho em três tempos, desviar as silvas do nosso caminho, dobrar as vergas para os cestos, atar os molhos com ervas que cortavam e amaciar o cabo da enxada com uma cuspidela, entre golpes na terra.
Ensinaste-nos a distinguir sapos de rãs e de relas e pardais de pintassilgos, e deleitavas-te a ver-nos empanturrar os melros caídos dos ninhos com água e papas da farinha dos pitos. E, incrivelmente, resistiam sempre, os pobres bichos.
E chegava a altura das batatas e recrutavas toda a gente. E ai daquele que se pusesse à frente do arado, ou confundisse a vaca com um “Ouo aíííí” ou um “Eixee vaca”. Ninguém ousava já desacatar as tuas ordens e os teus conselhos eram sempre os mais sábios e os mais certeiros. Como ninguém se atrevia a chegar-se às ninhadas de coelhos nas primeiras semanas, ou à caixa do milho onde pousavas as facas por altura da matança do porco, nem mesmo às pipas no celeiro quando mudavas o vinho velho. Couberam-me a mim alguns anos de limpeza da cuba que recebia o vinho novo. Quando deixei de caber na portinhola, e olhando para ela agora parece-me quase impossível algum dia ter lá cabido, encarregaste um neto mais novo. Se soubesses como me doeu a substituição! Gabavas o rigor da minha limpeza e sabias que nenhum canto daquele cubículo ficaria por esfregar com o pedaço de toucinho que me escorregava das mãos pequenas. Ninguém o fazia como eu, ainda o dizes. Acho que puxei a ti o gosto pelas coisas bem feitas. Sabes disso, agora.
Quando o último neto deixou de caber na cuba, na habilidade que te caracteriza, inventaste um sistema complexo de cabos e cordas, focos e esponjas na ponta de uma cana, mas quase inevitavelmente não era a mesma coisa e deixaste de ter vinho para mudar e não mais precisaste de limpar a cuba para o receber. É incrível como na vida os acontecimentos se sucedem e se fazem coincidir. Como rasgos de destino traçados. Sem volta a dar-lhes.
Ponho tanto de alegria como de saudade nesse tempo. Queria ter resistido mais manhãs aos Power Rangers, à Sailor Moon e ao Dragon Ball. Ter-me levantado mais vezes de madrugada e ter apanhado mais com o orvalho ainda frio na cara quando iam apanhar a erva para as vacas. Queria ter sofrido mais com os solavancos da carroça a caminho das terras e ter bebido mais leite ainda quente do úbere. Queria ter sabido que hoje teria saudades de levar o pacote de Planta debaixo do braço quando me mandavas à padeira e consolar-me com o pão quente e a manteiga derretida. E espantar-me com os bezerros a nascer, a periodicidade da postura dos ovos e da chegada das andorinhas para ocuparem os ninhos, nas traves de madeira do alpendre. Queria ter a terra quente entre os dedos dos pés e a cara fendida pelas bandeiras do milho. Queria ter chapinhado mais nos labirintos dos regos da água que puxavas do poço para regar o aido, ter montado mais armadilhas aos pardais e ter roubado mais salsa para não teres desculpa e fazeres bolos de bacalhau para todos. Se eu pudesse voltar atrás subiria à escada encostada à figueira e ficava lá, só para te ver ralhar como dantes por mais tempo e apanhava os damascos e os diospiros verdes. E fugia mais vezes na tua bicicleta para as corridas no beco e esmurrava mais os joelhos à conta disso. Faria mais das asneiras que hoje me deixam saudades, e estenderia a minha meninice eternamente só para não te ver agora, impaciente de testa franzida, à mesa do alpendre, ansioso que pela porta te irrompam netos.
Vou buscar a joeira e vou apanhar as framboesas. Talvez chegue a casa e faça gelado. E hei-de trazer-to, porque o que mais te mima agora é qualquer coisinha doce que te tragamos a par com a Visão da semana. Daqui a dias já vão estar os pêssegos e os damascos maduros e vais telefonar a dar conhecimento disso. E ninguém vai comê-los antes de nós. Vais garanti-lo.
Não foste avô de contar histórias connosco nos joelhos, mas de fazeres connosco a nossa história e hoje, não sei porquê, entre framboesas, ar puro e nostálgico, comovi-me com a precariedade desta vida e com a consciência do pouco tempo que dispenso contigo.
Há uma qualquer vontade de te homenagear pelo homem recto que és, pela habilidade que tens, pela perspicácia, pela preocupação, pelo Amor por detrás do rosto rígido que o tempo acabou por embrandecer.
És grande avô!

quinta-feira, junho 21, 2007

Para andar(es) em frente.

Beijinho no João Daniéééuuu...

Digo que importa muito, e tudo, ter uma grande e muito determinada determinação de não parar até chegar, venha o que vier, suceda o que suceder, trabalhe-se o que se trabalhar, murmure quem murmurar, quer lá se chegue, quer se morra pelo caminho, ou não se tenha ânimo para as dificuldades que nele há, quer se acabe o mundo.

Sta Teresa de Jesus