domingo, abril 20, 2008

Anda lá, Senhor!...

I

Senhor Jesus,
ensinai-me a ser generoso
a servir-Vos como Vós mereceis
a dar-me sem medida
a combater sem cuidar das feridas
a trabalhar sem procurar descanço
a gastar-me sem esperar outra recompensa,
senão saber que faço a Vossa vontade santa.

Ámen.



II

eu sei que somos muito mais
se nos olharmos tão fundo de frente
se a minha vida for por onde vais
a encher de luz os meus lugares ausentes
é que eu quero-te tanto
não saberia não te ter
é que eu quero-te tanto
é sempre mais do que eu te sei dizer
mil vezes mais do que eu te sei dizer

mafalda veiga


segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Prárrebitar(es)

"à procura, procura do vento. Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero. Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de vencê-lo mais uma vez e sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal."
José Luis Peixoto

sábado, fevereiro 23, 2008

Quando digo...

"É impossível!..."

"Tudo é possível."
(Lucas 18:27)
Um bom dia.

sábado, fevereiro 09, 2008

É(s) tão bom!

Vale a pena ver castelos no mar alto, vale a pena dar o salto...

É tão bom uma amizade assim, ai, faz tão bem saber com quem contar.

Eu quero ir ver quem me quer assim.

É bom pra mim e é bom pra quem tão bem me quer.

Vale a pena ver o mundo aqui do alto, vale a pena dar o salto!

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

E eles?...

Ela... Em cada gesto perdido, tu és igual a mim. Em cada ferida que sara, escondida do mundo, eu sou igual a ti. Fazes pintura de guerra que eu não sei apagar. Pintas o sol da cor da terra e a lua da cor do mar. E ele... Em cada grito da alma eu sou igual a ti. De cada vez que um olhar te alucina e te prende, tu és igual a mim. Fazes pinturas de sonhos, pintas o sol na minha mão. E és mistura de vento e lama entre os luares perdidos no chão. E ela... Em cada noite sem rumo tu és igual a mim. De cada vez que procuro, preciso de um abrigo eu sou igual a ti. Faço pinturas de guerra que eu não sei apagar. E pinto a lua da cor da terra e o sol da cor do mar. E ele... Em cada grito afundado eu sou igual a ti. De cada vez que a tremura desata o desejo tu és igual a mim. Faço pinturas de sonhos e pinto a lua na tua mão. Misturo o vento e a lama, piso os luares perdidos no chão.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Tem dias.

Há plásticos pretos nos postes dos candeeiros e luto académico na faculdade.
Um pé fora da porta e dá para perceber do ar que é quente e húmido e do céu cinzento está para chover. Água, ou assim. Quem dera, respostas.
Desço a Rua das Pretas, dói-me a cabeça e devo ter má cara porque ouvi um “Jeitosa!”, baixinho, entre dentes, de um sujeito, de bigode, escuro de sujidade e barba mal desfeita que se cruza comigo no passeio. Já dizia, há muito, a música: “São os loucos de Lisboa…”. Ainda eu não sei o quanto.
Estou a faltar a uma aula teórica sobre fármacos que modificam a transmissão opiácea e não me pesa.
Hoje saí de casa ainda a tempo de ver apagarem-se, de uma vez só, todas as lâmpadas dos postes de iluminação, ainda sem haver grande claridade. Não que hoje tivesse havido, de todo, grande claridade. Tem dias.
Resolvi-me, ainda agora, a voltar para casa de autocarro. O metro exige mais de mim do que hoje já me disponho a dar. Subo a Avenida da Liberdade. Não toda. Vou de phones com a Susana Félix a dizer-me que “enquanto vergo não parto, enquanto choro não seco” e há turistas chineses, a sorrir, de mochila às costas, na paragem do autocarro que entretanto chega.
Entro, valido o passe, há muita gente em pé e, com as mãos cheias de tralha, mando com o guarda-chuva em alguém que acaba a balbuciar meia dúzia de responsos.
Sigo e há dois pares de lugares vazios lá no fundo. Abro caminho e sento-me e há tanto trânsito e eu passo pelas brasas. Algumas paragens a seguir, não sei já quantas, entra um homem. Gordo, cabelo grisalho desalinhado. Aspecto geral normal apesar de descuidado. Idade aparente de uns 40 anos.
Aproxima-se para se sentar atrás de mim. Tem, agora mais de perto, caspa na camisola azul de gola redonda. Por todo o lado.
Senta-se, vasculha nuns sacos de plástico, rabisca umas coisas num caderno e quando não espero “Olhe, posso pedir-lhe uma informação?”. Eu “Claro, diga”. Tira, do saco, um sapato verde-escuro, acalcanhado e de atacadores. Não dou conta e ele, meio debruçado sobre o banco, aproxima de mim o sapato para que eu pudesse ver-lhe a palminha clara. Ele, arrastado, como se tivesse mimo na fala: “Isto está sujo ou está limpo?”. E eu “Está limpo!”. E ele “E é para sujar?”. E eu “Não, não é para sujar”. “Muito obrigado!”, “De nada.” e o sapato volta ao saco.
Hoje saí de casa ainda a tempo de ver apagarem-se, de uma vez só, todas as lâmpadas dos postes de iluminação, ainda sem haver grande claridade. Por esta altura já estão, outra vez, acesas. Dói-me a cabeça e não vejo a hora de aterrar na cama. Já não devo ter má cara. O caminho a pé até casa é tranquilo e, só por hoje, não finto os verdes e vermelhos nas cinco passadeiras consecutivas que habitualmente me consomem a paciência.
Hei-de descalçar-me e , a sorrir, analisar as minhas palmilhas. “Isto está sujo ou está limpo?”, “Está limpo!”. “E é para sujar?”…
“Não, não é para sujar”. Mas também tem dias.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

31 do 12?... E foi Dezembro!

E foi Dezembro - Luis Represas
***
E foi Dezembro. Dito em tua voz. Que as minhas mãos colheram devagar. E foi Dezembro. Escrito quando a sós tudo disseste quase sem falar. Foi um palco vazio a acontecer. No frio que se ergueu dentro de nós. Uma distância. O mar que se estendeu. A separar da minha a tua mão. E foi Dezembro. Inteiro. A anunciar a solidão dos dias por nascer. E foi Dezembro. À chuva. A reviver as pedras. E os rios. E os luares. Os nomes que vestiam os lugares. E os sonhos repartidos que não fomos. A coragem nascida de aceitar a verdade de ser o que hoje somos. E foi Dezembro. Vivo na roseira. Despida no silencio do jardim. E foi Dezembro. Ainda na cegueira das asas de uma ave que há em ti. Foi um tempo de amantes a aprender que não deve esquecer-se o verbo amar. Ou um inverno. Apenas. A perder-se da primavera do primeiro olhar.
* * * * * * * * * * * *
(Doze passas por doze não escusados Dezembros em 2008!)

domingo, dezembro 23, 2007

(Tenho para mim que...)

Os Búzios - Ana Moura

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Are you anybody's favorite person?

... tenho-me perguntado.

sábado, dezembro 08, 2007

Actualização

...mas torces o nariz e lá se vai o sol...

domingo, dezembro 02, 2007

Discos Pe(r)didos

Meu caminho é cada manhã / Não procure saber onde estou / Meu destino não é de ninguém / E eu não deixo os meus passos no chão / Se você não entende não vê / Se não me vê não entende / Não procure saber onde estou / Se o meu jeito te surpreende / Se o meu corpo virasse sol / Se minha mente virasse / mas só chove e chove / Chove e chove / Se um dia eu pudesse ver / Meu passado inteiro / E fizesse parar de chover / Nos primeiros erros / Meu corpo viraria sol / Minha mente viraria sol / Mas só chove e chove / Chove e chove

sexta-feira, novembro 02, 2007

"With every waking breath I breathe, I see what life has dealt to me"


... o amanha é sempre uma descoberta fascinante, repleta de cheiros, de cores, de emoções, de vida.
Não tenhas medo de não ver o que está depois das tábuas; o mar que hoje é revolto amanha é calmo e sereno, com um caminho bonito e único, ali, descoberto para ti e para esse coração doce e sereno que tu tens.
Respira e sente quão agradável é cada sensação por que passamos na longa estrada ...
P.G. (*)
=)

segunda-feira, outubro 29, 2007

Acção de Graças

Gosto quando a moleza própria do cansaço típico dos fins dos dias que, alegremente, cansam me embala a escrita. É sempre sinal de que fui tirando o melhor de cada uma das partes do todo em que me dei com os outros. Ter-Te sempre tão perto a ponto de sentir-Te a mão que me impele para diante para que dê os passos e tome as decisões.
Hoje agradeço porque “nada é coincidência, tudo é providência”e por chegar a ser impressionante a forma como Fazes suceder os sinais, elucidar as pistas e iluminar os caminhos. Por quem segue comigo longe, perto e assim-assim. Pela dose extra de energia compatível comigo, pelas surpresas feitas amigos que já faziam falta. Porque sempre que passamos por achar que não há para onde ir nem que fazer, porque nem sempre sabemos bem quem somos nos mundos tão grandes e frios onde a missão-vocação de cada um exige que estejamos, Pões sempre, em nós, qualquer coisa que nos faz querer… querer ser alguém. E aí a Vida deixa de poder parar, a viagem é sem regresso e vamos como ventos: com tudo para dar, sem tempo a perder e a saber que podemos e vamos chegar onde Tu nos queres levar.
Obrigada pelas caras novas e pelo acolhimento. Senti-me num grande e apertado abraço cor azulorbis. Obrigada pelos exemplos de dedicação e de esforço despretensiosos, pela fonte de Amor que brotou hoje no meio da cidade que ficou, há pouco e por pouco, para trás. Por me Renovares a vontade de “me consumir como vela que arde no altar, consumir de Amor. Só por ti, Jesus”. Por querer ser aquilo que Queres e saber que “sozinha eu não posso mais viver”.
“Juntos podemos e vamos mudar o Mundo” é a única frase que, repetida insistentemente, não se gasta nem se desvanece. Queiramos nós!
Amén.

domingo, outubro 21, 2007

Dia Mundial das Missões


TODOS EM MISSÃO

Onde quer que estejas. Seja qual for a tua idade e profissão. Cultives os sonhos e projectos que cultivares. Tenhas as aspirações que tiveres. A missão é a força dinâmica da vida a que estás chamado.
Estar em missão é sentir a urgência do amor com que Deus ama o mundo. É deixar-se envolver por Jesus Cristo na sua paixão pela humanidade. É viver em sintonia com o Espírito que, de forma irreversível, quer suscitar em nós um “coração novo” e renovar a face da terra, suas estruturas e organizações.
Há ainda muito a fazer. Há horizontes a prosseguir, caminhos a percorrer, iniciativas a promover.
Os problemas parecem maiores do que os esforços empreendidos. Só a fé alicerçada no amor alimenta a esperança num mundo melhor, numa sociedade digna da condição humana, numa Igreja que, graças ao Espírito Santo, permanece fiel ao mandato de Jesus Cristo e o prolonga no tempo por meio de nós.
A coragem de evangelizar é a medida do amor. Agir com o coração em benefício de todos, sobretudo dos mais necessitados. Dando e recebendo o que há de melhor na vida: Colaborar com Deus no projecto de salvação; estar disponível para a missão, pronto para servir sem hesitação, firme na convicção.
Esta é a fonte da nossa alegria. Esta é a razão da nossa maior responsabilidade. Colaborar com Deus para que Jesus realize a sua obra e todos possam descobrir e apreciar o amor com que somos amados.
Então, encher-se-ão de brilho os olhos da humanidade inteira, de contentamento os corações amargurados, de alimento os estômagos atrofiados, de esperança as aspirações silenciadas, de harmonia o universo, liberto de tudo o que desumaniza e aberto à plenitude que, sorridente, nos atrai à família dos filhos de Deus reunidos à mesa do Pai comum a celebrar festivamente a sua vida em família.
O serviço à missão reveste muitas e atraentes modalidades. Umas já estão experimentadas com êxito, outras terão de ser criadas pela “fantasia da caridade”. É o desafio que o Espírito nos faz por meio das situações provocantes que exigem soluções concretas
A oração é o primeiro e principal contributo missionário. É tempo de rezar mais e, sobretudo, melhor. Procurar a sintonia e o ritmo do coração de Cristo. Escutar o desabafo que sempre nos segreda: Vim para que tenham vida em abundância. Ide até aos confins da terra e comunicai esta boa nova a todas as pessoas que Deus ama. A vós, a ti confio esta missão, fruto do meu amor e prova da tua fé.

Pe Georgino Rocha
Obrigada Karina!

quinta-feira, outubro 18, 2007

Enquanto houver.

Enquanto houver um sorriso
Enquanto houver um fascínio
Vento a soprar-nos na cara
E a roupa a tocar na pele
Enquanto houver companhia
Nos avessos do caminho
Podem rasgar-nos a alma
Que há-de sobrar poesia
Enquanto lançarmos sonhos
Com a força da maré
E desvendarmos o mundo
Entre incertezas e fé
E as coisas oscilarem
Ao segredar-se uma jura
Podem rasgar-nos alma
Que há-de sobrar a ternura
Enquanto houver um disparo
Que rompa um silêncio vão
Enquanto o tempo doer
Ao escorregar-nos das mãos
E trocarmos a desculpa
Pela culpa da verdade
Podem rasgar-nos a alma
Que há-de sobrar-nos vontade
Letra: Mafalda Veiga

sexta-feira, outubro 12, 2007

Das coisas que Deus me deixa ditas atrás das orelhas.

Hoje estava capaz de sair por aí. Meter a quinta, não sair dela e, desassossegada, largar a procurar, do vento e do salitre, o que de um faz com que o outro se cole ao cabelo e à pele, arrefeça as pálpebras e salgue mais as lágrimas.
Porque, por hoje, carente, procurava com exaustão o afago num gesto, o abraço no enleio de uma aragem soprada com mais força, o conforto num ninho improvisado entre pedras, a acalmia do mundo, por esta hora, a perscrutar alguma esperança, o meu ansiado sentido num astro caído com rumo predestinado, o meu futuro. O que preciso, agora, neste Teu acalento universal.
Hoje quero para mim muito mais do que o que tenho. Quero-me mais do que a mim só. Quero-me a mim Contigo a baralhar as leis da Vida e a fazer crescer, sem ver-lhes depois as mãos, os meus braços. Quero retribuir, no inadiável hoje, o Amor que me tens. Adubar o coração, porque também precisa, e esticar infinitamente a vontade que tenho de Ti.
Quero a graça de um colo onde caiba o Mundo e a exiguidade de uma testa que deixe que Te sobeje o ombro.
Quero-me ao lado, alada, colada. Comprometida, incontida e desmedida.
Sempre.

domingo, setembro 30, 2007

A propósito.

Elogio do Amor
Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.Hoje em dia aspessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.
Miguel Esteves Cardoso, in Expresso

quarta-feira, setembro 19, 2007

"Isso é o jeito (...) de enganar o tempo."

Quando a hora dobra em triste e tardo toque / E em noite horrenda vejo escoar-se o dia, / Quando vejo esvair-se a violeta, ou que / A prata a preta têmpora assedia; / Quando vejo sem folha o tronco antigo / Que ao rebanho estendia sombra franca / E em feixe atado agora o verde trigo / Seguir o carro, a barba hirsuta e branca; / Sobre tua beleza então questiono / Que há de sofrer do Tempo a dura prova, / Pois as graças do mundo em abandono / Morrem ao ver nascendo a graça nova. / Contra a foice do Tempo é vão combate, / Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.

William Shakespeare

sábado, setembro 15, 2007

[Só por hoje] Procuro o lento cimo da transformação.

Procuro o lento cimo da transformação
Um som intenso. O vento na árvore fechada
A árvore parada que não vem ao meu encontro.
Chamo-a com assobios, convoco os pássaros
E amo a lenta floração dos bandos.
Procuro o cimo de um voo, um planalto
Muito extenso. E amo tanto
A árvore que abre a flor em silêncio.


Daniel Faria

segunda-feira, setembro 10, 2007

(Ainda) Santiago de Compostela

Faltavam os últimos dez quilómetros da nona e última etapa do caminho que, por fim, nos levava a Santiago de Compostela. Depois de tirada a fotografia junto ao marco que indicava estes últimos dez mil e poucos metros, entre outros peregrinos que se foram fazendo amigos ao longo do caminho, tomei consciência da dimensão que tomava aquela contagem decrescente de distância e de emoções.
Era dia 27 de Agosto, uma segunda-feira de sol quente, mas quente como ainda não se tinha feito sentir durante todo o restante caminho.
Já tínhamos caminhado oito dias e meio, o que por esta altura já deixava antever que à semelhança do que acontecia com os últimos quilómetros de cada etapa passada, os últimos quilómetros do derradeiro dia seriam percorridos num misto de ansiedade e de dor - porque dói muito - só aliviado pelas brincadeiras e acrobacias, pelas histórias e pelas canções, pela oração individual ou pela oração a três. E aos dez quilómetros da nona etapa, sem dar por mim, trauteava aquela música do André Sardet que diz “Para me encontrar / Procurei o meu lugar / E no fim estou mais perto de mim. / E na esperança de alcançar / Uma forma de mudar / Estou mais perto de mim.”. E estava. Como nunca antes estivera.
Fazer, finalmente, o Caminho de Santiago de Compostela, revelou-se a prova viva de que aliar os sonhos à persistência só pode resultar em coração cheio.
A 19 de Agosto, ainda o dia tinha apenas seis horas e catorze minutos, já eu, o João e o Ricardo, três jovens de Ílhavo, entravamos no suburbano que nos levaria à cidade do Porto, em cuja Sé iniciaríamos a peregrinação a que cada um se tinha proposto. Carimbadas as credenciais de peregrinos ainda intactas, já se afigurava diante nós a primeira das muitas setas amarelas que iriam nortear os nove dias seguintes.
Há já dois anos que idealizávamos, sonhávamos, avançávamos, recuávamos no “Camiño” e, finalmente, chegara a hora. À saída as palavras amigas e encorajadoras do Pe João, “Que Deus vos acompanhe e que o caminho vos transforme. Força.”, foram o mote.
Qualquer guia ou mapa, apesar de essenciais, qualquer testemunho ou tentativa de explicação daquilo que é fazer o Caminho de Santiago, reduzem à milésima parte o verdadeiro sentido do Camiño, porque como já dizia o poeta, “Caminhante não há caminho / O caminho é feito a andar.”. Neste sentido, a somar às dezenas de caminhos já trilhados e documentados, há os milhões de caminhos já percorridos, já que cada um que caminha, caminha por si o seu próprio caminho.
De outros testemunhos que procurei ir conhecendo, uma vez que na véspera de partirmos a sede de informação era insaciável, percebi em muitos a comparação inevitável entre o caminho e a própria Vida: as dificuldades do dia-a-dia, as tristezas, as desilusões, as metas, as ambições, feitas metáforas nas subidas intermináveis, no sol tórrido, no peso da mochila, na chuva, na trovoada, na alegria de finalmente chegarmos ao albergue, no banho quente e no banho frio, no colchão e no chão duro, na certeza de que na manhã seguinte teríamos pés para mais trinta quilómetros, no superar da etapa mais longa, na presença de amigos e familiares no início, a meio e no fim. Porém, fazer, efectivamente, o caminho dá também a outra perspectiva, aquela que se torna intraduzível no testemunho posterior: não só a Vida se revela um caminho mais ou menos penoso, como todo o caminho se apresenta repleto de Vida. E é assim que o Caminho de Santiago vale, sobretudo, pela presença viva de Deus numa listagem enorme de momentos, situações e pormenores que me custa arriscar enumera-los: há a Natureza e a Criação no estado mais puro, há a história dos lugares onde cada um faz história, há a experiência de grupo e a do Eu singular e único. Há a entreajuda, há a alegria, os sorrisos, as lágrimas e a oração fervorosa que brotam, espontaneamente, do sofrimento dos últimos quilómetros de cada dia. Há estranhos que se fazem amigos e histórias de Vida que extasiam. Há amigos e notas de gaitas de foles à chegada. Há cores e cheiros inebriantes. Há acolhimento, há discernimento, há a transmissão do segredo de um Caminho que afinal não termina em Santiago de Compostela, mas que lá começa, há já saudade das coisas que têm necessariamente que acabar, das pessoas que partem para voltar e daquelas que cruzaram o nosso caminho e que nunca mais veremos.
Há, afinal, a possibilidade imensa de nos maravilharmos, a cada instante e a cada passo, com a presença de Deus, em coisa e em cada Um.
Bon Camiño!