terça-feira, outubro 28, 2008

Porque sim.


Oh, kiss me beneath the milky twilight
Lead me out on the moonlit floor
Lift your open hand
Strike up the band and make the fireflies dance
Silver moon's sparkling
So kiss me.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Quality time.

De repente, os olhos são palavras

Quem fui? O que fui? O que somos?
Não há resposta.
Passámos. Não fomos. Éramos.
Outros pés, outras mãos, outros olhos.
Mas aprendi muito com a grande maré das vidas,
com a ternura da vista em milhares de olhos
que me viam ao mesmo tempo.

Pablo Neruda
10/10/08 - Margem Sul
En el mundo habrá un lugar para cada despertar un jardín de pan y de poesía.

sexta-feira, outubro 03, 2008

...

Preciso, às vezes, de uma certa luz que há a uma certa hora de certos dias - também não a todas as alturas do ano - num determinado sítio.
É por agora, penso, que o milagre acontece e as coisas tomam cada qual o seu tom pastel e alguém pinta o quadro mais sublime com as cores que julgo serem as minhas. As que os meus olhos mais apanham. As mais profundas.
É por agora, penso, imediatamente antes das maçãs do rosto me ficarem frias e o nariz me começar a pingar.
É por agora, penso, quando as gaivotas tomam a praia em dias como o de hoje, quando há nuvens brancas e baixas e sol. Um sol grande e a pôr-se. Um sol tão grande que parece perto.
É por agora, penso, por esta hora, que o milagre se dá.
De tantas vezes ver adivinho. Estou longe e adivinho o milagre a dar-se.
E se não tenho tempo de arrefecer as maçãs do rosto encardidas do sol da tarde, se já não fico até o nariz me pingar, passo a ponte com esta tela encaixilhada no espelho retrovisor e contento-me.
São dezanove horas e doze minutos e o sol não deve ainda sequer roçar a cordilheira de nuvens que estão pousadas no horizonte.
Dou-lhe quatro minutos. Dou quatro minutos ao sol e este pousa, enfim.
Sei que há no tempo que estas coisas demoram a paciência amorosa dos artistas.
É agora que as nuvens ficam da cor que as palmas das mãos têm quando, dadas, se aquecem. Uma cor que não puxa nem mais ao beije, nem mais ao roxo, nem tão pouco ao rosa e enquanto penso nisto destilam-se as cores de todas as coisas à minha volta.
E há gaivotas que se apossam da areia ao fundo e à minha esquerda, no quadro. São as que contemplam comigo o milagre. Há as que fazem o milagre, também. Vão e vêm, vagarosas, com a pouca ondulação que presumo que faça agora.
Penso que deve restar-me pouco mais do que meio sol e é agora do céu a cor das mãos que se estão a dar e as nuvens são da cor dos meus pés molhados e ao frio que daqui a pouco me vai arrefecer as maçãs do rosto e fazer-me pingar do nariz. E neles revelam-se, agora, todas as pedras com que no tempo se faz a areia. Brilhantes, pequenas, dão outra graça às minhas unhas e há um alaranjado, que se apura com o sol a pôr-se, nos meus ombros, nos meus pulsos, nos meus joelhos, nos meus tornozelos. Talento do artista consumado no ângulo da luz.
E por haver artista julgo que volta e meia me passa para as mãos as paletes e espera que me desembarace. São as cores do meu tempo. Pastéis, esbatidas.
Descuido-me e também já eu sou tela nas suas mãos e com o sol já escondido por trás das nuvens o alaranjado, antes nas minhas formas, é agora contorno brilhante das nuvens cinzentas que amuralham o sol. Tão brilhante que diria que algo acontece ao sol por esta altura, atrás das nuvens. A última pincelada. Agrada-me.
Sou eu, agora, das cores pastel que desceram do quadro e só assim faço mesmo meu o milagre do fim da tarde a uma certa hora de certos dias, também não a todas as alturas do ano, num determinado sítio.
Todos os sentidos me tocam as cores e aos olhos do artista sou do tom do fermento que leveda, do cheiro da água que se perde no ar do fim da tarde, do sabor do mar que seca ao ar na minha pele, dos sons crepitosos da espuma, das conversas indecifráveis entre as gaivotas, das ondas que rebentam aos meus pés, da cor das nuvens, ao frio.
Fica a faltar-me o tacto ao toque das mãos que, dadas, se aquecem e tomam a cor que têm as nuvens não roçadas, por enquanto, por um sol que é tão grande a ponto de parecer pôr-se perto.

sexta-feira, setembro 19, 2008

"Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiii... a minha vida!"

Tenho umas saudades de escrever. Aqui.
Logo. Amanhã. Ou além. Vou escrever.
Talvez pudesse o tempo parar. Quando tudo em nós de precipita. Quando a vida nos desgarra os sentidos. E não espera, ai quem dera. Houvesse um canto pra se ficar. Longe da guerra feroz que nos domina. Se o amor fosse um lugar a salvo. Sem medos, sem fragilidade. Tão bom pudesse o tempo parar. E voltar-se a preencher o vazio. É tão duro aprender que na vida. Nada se repete, nada se promete. E é tudo tão fugaz e tão breve. Tão bom pudesse o tempo parar. E encharcar-me de azul e de longe. Acalmar a raiva aflita da vertigem. Sentir o teu braço e poder ficar. É tudo tão fugaz e tão breve. Como os reflexos da lua no rio. Tudo aquilo que se agarra já fugiu. É tudo tão fugaz e tão breve.
MafaldaVeiga, Fragilidade

quarta-feira, julho 02, 2008

sexta-feira, junho 20, 2008

Sem título.

Há ocasiões, há alturas, de tempo e de serem altas demais para me atirar delas, em que me vem a cobardia de querer de volta o ninho que conheço às cegas, o asilo que há nos lugares pequenos, a água nos ouvidos que dilui os sons, a posição enroscada que resguarda o que é mais íntimo, o que é mais frágil, o que quero intacto.
Quero o útero primeiro. A Tuas duas mãos em concha à beira do planalto alto. A possibilidade de ficar sempre até saber bater as asas.
E nesses momentos corro atrás dos lugares onde mais Te encontro. Estás nos pinheiros de flores simples, singelas. Nos animais que os habitam, no seu canto. E estás nas pinhas que acomodam sementes, possibilidades imensas de novas árvores. Estás nas copas que não deixam o sol ferir os olhos. No santuário onde um colo me espera sempre que o procuro. E quando caminho, se me der conta, estás nas agulhas que se quebram e me dão a certeza de encetar de novo o caminho para o meu caminho.
E então volto-me para regressar. E assim que me volto sou eu o útero primeiro, a árvore que abriga e oferece os sons alegres, que acomoda todas as possibilidades. E sou de novo Teu santuário nos dias que vão correndo, lugar para Ti. E é em mim que Te procuro, e para Ti dentro de mim que corro, quando se abre, ao sol que fere os olhos, o que é mais íntimo, o que é mais frágil, o que quero intacto.

domingo, maio 25, 2008

Por Te revelares.

Há um Deus e um Cristo que nas palavras brancas de tão puras e sinceras dele são amor e sentido para a Vida que se revelam nele mesmo que é o miúdo que há entre quarenta e um de Espírito Santo ainda fresco que não baixa os olhos que se levanta e se chega à frente para responder à provocação do bispo e que sem que a voz lhe trema por um instante que seja diz que Tu és o Amor que és o Perdão que és a infinita possibilidade de se voltar atrás para se fazer bem feito com os olhos postos em Ti exemplo da maior das entregas e então nele para nós...




...revelas-Te!

domingo, maio 18, 2008

Hum... escolho...

"Nada te espanta, nada te encanta, nada te tomba ou te levanta, sem passar dentro de ti."

"Tu és a escala, a mão que embala. Tomas bem conta de ti. Tu és a escala, a mão que embala. Tens um rumo a seguir."

"E nada te atrasa, nada te arrasa, nem que no céu percas uma asa. Vais pegar de novo em ti."


Sobre Jorge Cruz:

Nasci na Praia da Barra, no seio de uma família descendente de padeiros e guardas fiscais. O meu pai era treinador de futebol e a minha mãe cozinheira de chanfanas. Fiz a escola primária num colégio de freiras onde fui introduzido à fé e à religião. Aos fins-de-semana visitava militantes do PRP na prisão de Custóias. Com 10 anos, parti para Angola. Estudei na Escola dos Flamingos Cor-de-Rosa, Lobito, Benguela. Fui aprendiz de pesca em mar-alto sob vigilância de militares cubanos. Iniciei o treino em ginástica desportiva com o campeão mundial russo Lev Smedianov, embora a composição de refrões pop tenha afectado o meu rendimento. De regresso a Portugal, e já depois da morte de José Afonso, vivi na Charneca da Caparica, escrevi letras de hip-hop e formei um duo com o guitarrista Rui Jorge Abreu. Aos 15 anos, voltei à Praia da Barra onde celebrei casamento com uma jovem fotógrafa praticante de body-board. Fui basquetebolista. Li os existencialistas e formei o power-trio Superego que gravou em 1998 o disco "Quem Concebeu o Mundo Não Lia Romances" aclamado pela crítica por ter capa sépia. Ao vivo os Superego abriram para Sérgio Godinho e Jorge Palma e podem ser acusados de ter interrompido músicas para baixar do palco e participar em rixas. Com o segundo disco "A lenda da Irresponsabilidade do Poeta" (2001) fecharam a sua história inscrita num manifesto cómico-radical que não lhes granjeou amizades. Pelo meio editei 300 exemplares de canções acústicas gravadas em cassete baptizadas de "O Pequeno Aquiles". Licenciei-me em psicologia. Assinei os papéis de divórcio e fui tocar nas ruas de Barcelona e Santiago de Compostela. Estagiei com o músico guineense Oli Silva. Formei uma Fanfarra de música tradicional portuguesa de fusão. Dormi na Lagoa do Fogo e ouvi o "Time Out Of Mind". Fui investigador na Universidade do Porto, àrea de feminismo e psicologia política. Em 2003, gravei o álbum "Sede" que viria a ser editado pela NorteSul. Dediquei-me à escrita de short-stories e romances de amor. Na primavera de 2006, formei 4 bandas e fui para a Sra. da Hora gravar "Poeira", colecção de 11 canções que conta com a colaboração de alguns dos músicos portugueses de minha predilecção nas áreas do rock, jazz, reggae e música tradicional. Esperei pelo S. João para me despedir dos hospitais portuenses e mudei-me para Lisboa onde me iniciei nas profissões de bartender, porteiro e ensaísta. Sou Jorge Cruz, 32 anos, vagabundo amador, alquimista, escritor de canções.

http://www.myspace.com/jorgecruzpoeira

sexta-feira, maio 16, 2008

(sonhei)

"A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
Cheguei-me a ti disse baixinho "olá"
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste."

Sérgio Godinho


domingo, maio 11, 2008

Da razão de haver pardais no lugar de andorinhas, nas traves do alpendre, este ano.

Quisesse o tempo criar-te um espaço que se abrisse só com a intenção de te trazer para dentro da minha casa, como se fosses o desconhecido mais confiável que passa a esta hora da (minha) noite. Porque tenho para mim - que vou sendo com tempo - que do tempo que nos cabe só arrecadamos realmente os desconhecidos certeiros que convidamos para o nosso lar. Se os sentamos à mesa que temos no canto que é o mais agradável, se lhes damos a beber o melhor chá onde ensopem as melhores bolachas, com a manta mais quente sobre os joelhos, fazemos dos piores acasos os nossos mais ilustres hóspedes.
Há que impedir-lhes a entrada. Correr com eles, se for preciso.
Ainda que com o Tempo passem à nossa porta, de braço dado, o Medo com a Angústia, atrás de quem sigam a Desilusão e o Desencanto, envaidecidos de sua Tristeza, havemos de apressar-nos a apresentar-lhes o Amor, o Entusiasmo e a Alegria, que estarão para surgir no outro passeio da estrada e que seguem, de mãos dadas, para despachá-los sem lhes darem tempo. E hão-de vencer-se discórdias no tempo que dura estender um sorriso na boca. Crê quando digo que hão-de vencer-se guerras nas notas dos nossos risos.
Se soubermos onde guardámos as chaves que abrem as portas, se as portas abertas disserem da nossa entrega, se o tempo que entrar sacudir os pés e carregar para dentro os momentos em que construímos verdadeiramente, seremos os melhores moradores de nós mesmos, anfitriões da mais bela festa.

quarta-feira, abril 30, 2008

sexta-feira, abril 25, 2008

Onde é que eu já vi isto?!

e tu e eu a descobrir o ar
não é preciso correr
não é urgente chegar
o que é preciso é viver.
Vagos 19/04

domingo, abril 20, 2008

Anda lá, Senhor!...

I

Senhor Jesus,
ensinai-me a ser generoso
a servir-Vos como Vós mereceis
a dar-me sem medida
a combater sem cuidar das feridas
a trabalhar sem procurar descanço
a gastar-me sem esperar outra recompensa,
senão saber que faço a Vossa vontade santa.

Ámen.



II

eu sei que somos muito mais
se nos olharmos tão fundo de frente
se a minha vida for por onde vais
a encher de luz os meus lugares ausentes
é que eu quero-te tanto
não saberia não te ter
é que eu quero-te tanto
é sempre mais do que eu te sei dizer
mil vezes mais do que eu te sei dizer

mafalda veiga


segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Prárrebitar(es)

"à procura, procura do vento. Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero. Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de vencê-lo mais uma vez e sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal."
José Luis Peixoto

sábado, fevereiro 23, 2008

Quando digo...

"É impossível!..."

"Tudo é possível."
(Lucas 18:27)
Um bom dia.

sábado, fevereiro 09, 2008

É(s) tão bom!

Vale a pena ver castelos no mar alto, vale a pena dar o salto...

É tão bom uma amizade assim, ai, faz tão bem saber com quem contar.

Eu quero ir ver quem me quer assim.

É bom pra mim e é bom pra quem tão bem me quer.

Vale a pena ver o mundo aqui do alto, vale a pena dar o salto!

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

E eles?...

Ela... Em cada gesto perdido, tu és igual a mim. Em cada ferida que sara, escondida do mundo, eu sou igual a ti. Fazes pintura de guerra que eu não sei apagar. Pintas o sol da cor da terra e a lua da cor do mar. E ele... Em cada grito da alma eu sou igual a ti. De cada vez que um olhar te alucina e te prende, tu és igual a mim. Fazes pinturas de sonhos, pintas o sol na minha mão. E és mistura de vento e lama entre os luares perdidos no chão. E ela... Em cada noite sem rumo tu és igual a mim. De cada vez que procuro, preciso de um abrigo eu sou igual a ti. Faço pinturas de guerra que eu não sei apagar. E pinto a lua da cor da terra e o sol da cor do mar. E ele... Em cada grito afundado eu sou igual a ti. De cada vez que a tremura desata o desejo tu és igual a mim. Faço pinturas de sonhos e pinto a lua na tua mão. Misturo o vento e a lama, piso os luares perdidos no chão.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Tem dias.

Há plásticos pretos nos postes dos candeeiros e luto académico na faculdade.
Um pé fora da porta e dá para perceber do ar que é quente e húmido e do céu cinzento está para chover. Água, ou assim. Quem dera, respostas.
Desço a Rua das Pretas, dói-me a cabeça e devo ter má cara porque ouvi um “Jeitosa!”, baixinho, entre dentes, de um sujeito, de bigode, escuro de sujidade e barba mal desfeita que se cruza comigo no passeio. Já dizia, há muito, a música: “São os loucos de Lisboa…”. Ainda eu não sei o quanto.
Estou a faltar a uma aula teórica sobre fármacos que modificam a transmissão opiácea e não me pesa.
Hoje saí de casa ainda a tempo de ver apagarem-se, de uma vez só, todas as lâmpadas dos postes de iluminação, ainda sem haver grande claridade. Não que hoje tivesse havido, de todo, grande claridade. Tem dias.
Resolvi-me, ainda agora, a voltar para casa de autocarro. O metro exige mais de mim do que hoje já me disponho a dar. Subo a Avenida da Liberdade. Não toda. Vou de phones com a Susana Félix a dizer-me que “enquanto vergo não parto, enquanto choro não seco” e há turistas chineses, a sorrir, de mochila às costas, na paragem do autocarro que entretanto chega.
Entro, valido o passe, há muita gente em pé e, com as mãos cheias de tralha, mando com o guarda-chuva em alguém que acaba a balbuciar meia dúzia de responsos.
Sigo e há dois pares de lugares vazios lá no fundo. Abro caminho e sento-me e há tanto trânsito e eu passo pelas brasas. Algumas paragens a seguir, não sei já quantas, entra um homem. Gordo, cabelo grisalho desalinhado. Aspecto geral normal apesar de descuidado. Idade aparente de uns 40 anos.
Aproxima-se para se sentar atrás de mim. Tem, agora mais de perto, caspa na camisola azul de gola redonda. Por todo o lado.
Senta-se, vasculha nuns sacos de plástico, rabisca umas coisas num caderno e quando não espero “Olhe, posso pedir-lhe uma informação?”. Eu “Claro, diga”. Tira, do saco, um sapato verde-escuro, acalcanhado e de atacadores. Não dou conta e ele, meio debruçado sobre o banco, aproxima de mim o sapato para que eu pudesse ver-lhe a palminha clara. Ele, arrastado, como se tivesse mimo na fala: “Isto está sujo ou está limpo?”. E eu “Está limpo!”. E ele “E é para sujar?”. E eu “Não, não é para sujar”. “Muito obrigado!”, “De nada.” e o sapato volta ao saco.
Hoje saí de casa ainda a tempo de ver apagarem-se, de uma vez só, todas as lâmpadas dos postes de iluminação, ainda sem haver grande claridade. Por esta altura já estão, outra vez, acesas. Dói-me a cabeça e não vejo a hora de aterrar na cama. Já não devo ter má cara. O caminho a pé até casa é tranquilo e, só por hoje, não finto os verdes e vermelhos nas cinco passadeiras consecutivas que habitualmente me consomem a paciência.
Hei-de descalçar-me e , a sorrir, analisar as minhas palmilhas. “Isto está sujo ou está limpo?”, “Está limpo!”. “E é para sujar?”…
“Não, não é para sujar”. Mas também tem dias.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

31 do 12?... E foi Dezembro!

E foi Dezembro - Luis Represas
***
E foi Dezembro. Dito em tua voz. Que as minhas mãos colheram devagar. E foi Dezembro. Escrito quando a sós tudo disseste quase sem falar. Foi um palco vazio a acontecer. No frio que se ergueu dentro de nós. Uma distância. O mar que se estendeu. A separar da minha a tua mão. E foi Dezembro. Inteiro. A anunciar a solidão dos dias por nascer. E foi Dezembro. À chuva. A reviver as pedras. E os rios. E os luares. Os nomes que vestiam os lugares. E os sonhos repartidos que não fomos. A coragem nascida de aceitar a verdade de ser o que hoje somos. E foi Dezembro. Vivo na roseira. Despida no silencio do jardim. E foi Dezembro. Ainda na cegueira das asas de uma ave que há em ti. Foi um tempo de amantes a aprender que não deve esquecer-se o verbo amar. Ou um inverno. Apenas. A perder-se da primavera do primeiro olhar.
* * * * * * * * * * * *
(Doze passas por doze não escusados Dezembros em 2008!)

domingo, dezembro 23, 2007

(Tenho para mim que...)

Os Búzios - Ana Moura

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Are you anybody's favorite person?

... tenho-me perguntado.

sábado, dezembro 08, 2007

Actualização

...mas torces o nariz e lá se vai o sol...

domingo, dezembro 02, 2007

Discos Pe(r)didos

Meu caminho é cada manhã / Não procure saber onde estou / Meu destino não é de ninguém / E eu não deixo os meus passos no chão / Se você não entende não vê / Se não me vê não entende / Não procure saber onde estou / Se o meu jeito te surpreende / Se o meu corpo virasse sol / Se minha mente virasse / mas só chove e chove / Chove e chove / Se um dia eu pudesse ver / Meu passado inteiro / E fizesse parar de chover / Nos primeiros erros / Meu corpo viraria sol / Minha mente viraria sol / Mas só chove e chove / Chove e chove

sexta-feira, novembro 02, 2007

"With every waking breath I breathe, I see what life has dealt to me"


... o amanha é sempre uma descoberta fascinante, repleta de cheiros, de cores, de emoções, de vida.
Não tenhas medo de não ver o que está depois das tábuas; o mar que hoje é revolto amanha é calmo e sereno, com um caminho bonito e único, ali, descoberto para ti e para esse coração doce e sereno que tu tens.
Respira e sente quão agradável é cada sensação por que passamos na longa estrada ...
P.G. (*)
=)

segunda-feira, outubro 29, 2007

Acção de Graças

Gosto quando a moleza própria do cansaço típico dos fins dos dias que, alegremente, cansam me embala a escrita. É sempre sinal de que fui tirando o melhor de cada uma das partes do todo em que me dei com os outros. Ter-Te sempre tão perto a ponto de sentir-Te a mão que me impele para diante para que dê os passos e tome as decisões.
Hoje agradeço porque “nada é coincidência, tudo é providência”e por chegar a ser impressionante a forma como Fazes suceder os sinais, elucidar as pistas e iluminar os caminhos. Por quem segue comigo longe, perto e assim-assim. Pela dose extra de energia compatível comigo, pelas surpresas feitas amigos que já faziam falta. Porque sempre que passamos por achar que não há para onde ir nem que fazer, porque nem sempre sabemos bem quem somos nos mundos tão grandes e frios onde a missão-vocação de cada um exige que estejamos, Pões sempre, em nós, qualquer coisa que nos faz querer… querer ser alguém. E aí a Vida deixa de poder parar, a viagem é sem regresso e vamos como ventos: com tudo para dar, sem tempo a perder e a saber que podemos e vamos chegar onde Tu nos queres levar.
Obrigada pelas caras novas e pelo acolhimento. Senti-me num grande e apertado abraço cor azulorbis. Obrigada pelos exemplos de dedicação e de esforço despretensiosos, pela fonte de Amor que brotou hoje no meio da cidade que ficou, há pouco e por pouco, para trás. Por me Renovares a vontade de “me consumir como vela que arde no altar, consumir de Amor. Só por ti, Jesus”. Por querer ser aquilo que Queres e saber que “sozinha eu não posso mais viver”.
“Juntos podemos e vamos mudar o Mundo” é a única frase que, repetida insistentemente, não se gasta nem se desvanece. Queiramos nós!
Amén.

domingo, outubro 21, 2007

Dia Mundial das Missões


TODOS EM MISSÃO

Onde quer que estejas. Seja qual for a tua idade e profissão. Cultives os sonhos e projectos que cultivares. Tenhas as aspirações que tiveres. A missão é a força dinâmica da vida a que estás chamado.
Estar em missão é sentir a urgência do amor com que Deus ama o mundo. É deixar-se envolver por Jesus Cristo na sua paixão pela humanidade. É viver em sintonia com o Espírito que, de forma irreversível, quer suscitar em nós um “coração novo” e renovar a face da terra, suas estruturas e organizações.
Há ainda muito a fazer. Há horizontes a prosseguir, caminhos a percorrer, iniciativas a promover.
Os problemas parecem maiores do que os esforços empreendidos. Só a fé alicerçada no amor alimenta a esperança num mundo melhor, numa sociedade digna da condição humana, numa Igreja que, graças ao Espírito Santo, permanece fiel ao mandato de Jesus Cristo e o prolonga no tempo por meio de nós.
A coragem de evangelizar é a medida do amor. Agir com o coração em benefício de todos, sobretudo dos mais necessitados. Dando e recebendo o que há de melhor na vida: Colaborar com Deus no projecto de salvação; estar disponível para a missão, pronto para servir sem hesitação, firme na convicção.
Esta é a fonte da nossa alegria. Esta é a razão da nossa maior responsabilidade. Colaborar com Deus para que Jesus realize a sua obra e todos possam descobrir e apreciar o amor com que somos amados.
Então, encher-se-ão de brilho os olhos da humanidade inteira, de contentamento os corações amargurados, de alimento os estômagos atrofiados, de esperança as aspirações silenciadas, de harmonia o universo, liberto de tudo o que desumaniza e aberto à plenitude que, sorridente, nos atrai à família dos filhos de Deus reunidos à mesa do Pai comum a celebrar festivamente a sua vida em família.
O serviço à missão reveste muitas e atraentes modalidades. Umas já estão experimentadas com êxito, outras terão de ser criadas pela “fantasia da caridade”. É o desafio que o Espírito nos faz por meio das situações provocantes que exigem soluções concretas
A oração é o primeiro e principal contributo missionário. É tempo de rezar mais e, sobretudo, melhor. Procurar a sintonia e o ritmo do coração de Cristo. Escutar o desabafo que sempre nos segreda: Vim para que tenham vida em abundância. Ide até aos confins da terra e comunicai esta boa nova a todas as pessoas que Deus ama. A vós, a ti confio esta missão, fruto do meu amor e prova da tua fé.

Pe Georgino Rocha
Obrigada Karina!

quinta-feira, outubro 18, 2007

Enquanto houver.

Enquanto houver um sorriso
Enquanto houver um fascínio
Vento a soprar-nos na cara
E a roupa a tocar na pele
Enquanto houver companhia
Nos avessos do caminho
Podem rasgar-nos a alma
Que há-de sobrar poesia
Enquanto lançarmos sonhos
Com a força da maré
E desvendarmos o mundo
Entre incertezas e fé
E as coisas oscilarem
Ao segredar-se uma jura
Podem rasgar-nos alma
Que há-de sobrar a ternura
Enquanto houver um disparo
Que rompa um silêncio vão
Enquanto o tempo doer
Ao escorregar-nos das mãos
E trocarmos a desculpa
Pela culpa da verdade
Podem rasgar-nos a alma
Que há-de sobrar-nos vontade
Letra: Mafalda Veiga

sexta-feira, outubro 12, 2007

Das coisas que Deus me deixa ditas atrás das orelhas.

Hoje estava capaz de sair por aí. Meter a quinta, não sair dela e, desassossegada, largar a procurar, do vento e do salitre, o que de um faz com que o outro se cole ao cabelo e à pele, arrefeça as pálpebras e salgue mais as lágrimas.
Porque, por hoje, carente, procurava com exaustão o afago num gesto, o abraço no enleio de uma aragem soprada com mais força, o conforto num ninho improvisado entre pedras, a acalmia do mundo, por esta hora, a perscrutar alguma esperança, o meu ansiado sentido num astro caído com rumo predestinado, o meu futuro. O que preciso, agora, neste Teu acalento universal.
Hoje quero para mim muito mais do que o que tenho. Quero-me mais do que a mim só. Quero-me a mim Contigo a baralhar as leis da Vida e a fazer crescer, sem ver-lhes depois as mãos, os meus braços. Quero retribuir, no inadiável hoje, o Amor que me tens. Adubar o coração, porque também precisa, e esticar infinitamente a vontade que tenho de Ti.
Quero a graça de um colo onde caiba o Mundo e a exiguidade de uma testa que deixe que Te sobeje o ombro.
Quero-me ao lado, alada, colada. Comprometida, incontida e desmedida.
Sempre.

domingo, setembro 30, 2007

A propósito.

Elogio do Amor
Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.Hoje em dia aspessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.
Miguel Esteves Cardoso, in Expresso

quarta-feira, setembro 19, 2007

"Isso é o jeito (...) de enganar o tempo."

Quando a hora dobra em triste e tardo toque / E em noite horrenda vejo escoar-se o dia, / Quando vejo esvair-se a violeta, ou que / A prata a preta têmpora assedia; / Quando vejo sem folha o tronco antigo / Que ao rebanho estendia sombra franca / E em feixe atado agora o verde trigo / Seguir o carro, a barba hirsuta e branca; / Sobre tua beleza então questiono / Que há de sofrer do Tempo a dura prova, / Pois as graças do mundo em abandono / Morrem ao ver nascendo a graça nova. / Contra a foice do Tempo é vão combate, / Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.

William Shakespeare

sábado, setembro 15, 2007

[Só por hoje] Procuro o lento cimo da transformação.

Procuro o lento cimo da transformação
Um som intenso. O vento na árvore fechada
A árvore parada que não vem ao meu encontro.
Chamo-a com assobios, convoco os pássaros
E amo a lenta floração dos bandos.
Procuro o cimo de um voo, um planalto
Muito extenso. E amo tanto
A árvore que abre a flor em silêncio.


Daniel Faria

segunda-feira, setembro 10, 2007

(Ainda) Santiago de Compostela

Faltavam os últimos dez quilómetros da nona e última etapa do caminho que, por fim, nos levava a Santiago de Compostela. Depois de tirada a fotografia junto ao marco que indicava estes últimos dez mil e poucos metros, entre outros peregrinos que se foram fazendo amigos ao longo do caminho, tomei consciência da dimensão que tomava aquela contagem decrescente de distância e de emoções.
Era dia 27 de Agosto, uma segunda-feira de sol quente, mas quente como ainda não se tinha feito sentir durante todo o restante caminho.
Já tínhamos caminhado oito dias e meio, o que por esta altura já deixava antever que à semelhança do que acontecia com os últimos quilómetros de cada etapa passada, os últimos quilómetros do derradeiro dia seriam percorridos num misto de ansiedade e de dor - porque dói muito - só aliviado pelas brincadeiras e acrobacias, pelas histórias e pelas canções, pela oração individual ou pela oração a três. E aos dez quilómetros da nona etapa, sem dar por mim, trauteava aquela música do André Sardet que diz “Para me encontrar / Procurei o meu lugar / E no fim estou mais perto de mim. / E na esperança de alcançar / Uma forma de mudar / Estou mais perto de mim.”. E estava. Como nunca antes estivera.
Fazer, finalmente, o Caminho de Santiago de Compostela, revelou-se a prova viva de que aliar os sonhos à persistência só pode resultar em coração cheio.
A 19 de Agosto, ainda o dia tinha apenas seis horas e catorze minutos, já eu, o João e o Ricardo, três jovens de Ílhavo, entravamos no suburbano que nos levaria à cidade do Porto, em cuja Sé iniciaríamos a peregrinação a que cada um se tinha proposto. Carimbadas as credenciais de peregrinos ainda intactas, já se afigurava diante nós a primeira das muitas setas amarelas que iriam nortear os nove dias seguintes.
Há já dois anos que idealizávamos, sonhávamos, avançávamos, recuávamos no “Camiño” e, finalmente, chegara a hora. À saída as palavras amigas e encorajadoras do Pe João, “Que Deus vos acompanhe e que o caminho vos transforme. Força.”, foram o mote.
Qualquer guia ou mapa, apesar de essenciais, qualquer testemunho ou tentativa de explicação daquilo que é fazer o Caminho de Santiago, reduzem à milésima parte o verdadeiro sentido do Camiño, porque como já dizia o poeta, “Caminhante não há caminho / O caminho é feito a andar.”. Neste sentido, a somar às dezenas de caminhos já trilhados e documentados, há os milhões de caminhos já percorridos, já que cada um que caminha, caminha por si o seu próprio caminho.
De outros testemunhos que procurei ir conhecendo, uma vez que na véspera de partirmos a sede de informação era insaciável, percebi em muitos a comparação inevitável entre o caminho e a própria Vida: as dificuldades do dia-a-dia, as tristezas, as desilusões, as metas, as ambições, feitas metáforas nas subidas intermináveis, no sol tórrido, no peso da mochila, na chuva, na trovoada, na alegria de finalmente chegarmos ao albergue, no banho quente e no banho frio, no colchão e no chão duro, na certeza de que na manhã seguinte teríamos pés para mais trinta quilómetros, no superar da etapa mais longa, na presença de amigos e familiares no início, a meio e no fim. Porém, fazer, efectivamente, o caminho dá também a outra perspectiva, aquela que se torna intraduzível no testemunho posterior: não só a Vida se revela um caminho mais ou menos penoso, como todo o caminho se apresenta repleto de Vida. E é assim que o Caminho de Santiago vale, sobretudo, pela presença viva de Deus numa listagem enorme de momentos, situações e pormenores que me custa arriscar enumera-los: há a Natureza e a Criação no estado mais puro, há a história dos lugares onde cada um faz história, há a experiência de grupo e a do Eu singular e único. Há a entreajuda, há a alegria, os sorrisos, as lágrimas e a oração fervorosa que brotam, espontaneamente, do sofrimento dos últimos quilómetros de cada dia. Há estranhos que se fazem amigos e histórias de Vida que extasiam. Há amigos e notas de gaitas de foles à chegada. Há cores e cheiros inebriantes. Há acolhimento, há discernimento, há a transmissão do segredo de um Caminho que afinal não termina em Santiago de Compostela, mas que lá começa, há já saudade das coisas que têm necessariamente que acabar, das pessoas que partem para voltar e daquelas que cruzaram o nosso caminho e que nunca mais veremos.
Há, afinal, a possibilidade imensa de nos maravilharmos, a cada instante e a cada passo, com a presença de Deus, em coisa e em cada Um.
Bon Camiño!

quinta-feira, agosto 30, 2007

Caminho de Santiago de Compostela


"Para me encontrar, procurei o meu lugar e no fim estou mais perto de mim. E na esperança de alcançar uma forma de mudar, estou mais perto de mim. Estou mais perto de mim, mais perto de mim"

André Sardet

segunda-feira, julho 23, 2007

Xomos p’la Xerra!


Xomos p’la Xerra e p’los xales de montanha. Xomos p’la qualidade de vida e p’las antenas de TêBê. Xomos p’los tectos inclinados e p’las escadas em caracol. Xomos p’las Xenhoras que não xão belhas e p’las aparixões. Xomos p’las queixeiras e p’los regatos de áuga. Xomos p’las tele-cadeiras baratinhas e p’las provas de prexunto e queixo. Xomos p’las giesteiras amarelas e p’los banhos txécos. Xomos p’los vales em Bê e p’la desglaciaxão. Xomos p’los rabos para o ar e p’los catálogos fotográficos. Xomos p’los parques infantis e p’los txácuzzis naturalmente sem áuga. Xomos p’los bindes melanxia e p’los cafés bué bué caros. Xomos p’la xôpa de espinafres e p’la inutilidade das varinhas mágicas. Xomos p’las xaladas e p’los rixóis. Xomos p’las coinxidênxias e p’la Prova Oral. Xomos p’la recentemente adquirida versão de ararutas com queixo da xerra e p’la procriaxão de luas. Xomos p’los eclipxes e p’los anéis brilhantes. Xomos p’la áuga a correr e p’los xocalhos das obelhas que por sinal pertencem a manadas. Xomos p’los aquexedores e p’las notas de xinquenta eurus. Xomos p’lo pão com xicolate e p’los votos de miséria dos franxixcanos. Xomos p’los amigos, xomos p’los microclimas e p’la mixa das sete. Xomos p’la Xara e p’lo Abraão que conxeberam em idade avanxada e por xinal coziam pão sem xicolate e vitelo axado. Xomos p’lo acolhimento!
Xomos um poucuxinho xerranos e gostamos!

Vá lá [suspiro]. Colabora! Só quero "(...) o riso, o amor, o gosto a sal, o sol do olhar."

Quisera roubar-te essas palavras e morrer / Trazer-te assim até ao fim do que eu puder / E começar um dia mais eternamente / Por te rever, só. / Pudesse eu guardar-te nos sentidos e na voz / E descobrir o que será de nós. / E demorar um dia mais eternamente / Por te rever, só. / Quisera a ternura, calmaria azul do mar / O riso, o amor, o gosto a sal, o sol do olhar / E um lugar pra me espraiar eternamente / Por te rever, só. / Pudesse eu ser tempo a respirar no teu abraço. / Adormecer e abandonar-me de cansaço / Quisera assim perder-me em mim eternamente / Por te rever, só .
Mafalda Veiga

terça-feira, julho 17, 2007

"Há coisas [fantásticas relacionadas com esse grande senhor da música portuguesa que é o José Cid] que só acontecem no Verão..."

Tudo a comprar! A "mãe do rock português" merece...
('Tou muito pouco inspirada. Ele vale por si!)
Férias... "Keep pushing!!!"... 'tá quase!

sábado, junho 30, 2007

Ao meu avô Fernando,

"Os nossos projectos / de outra mesa maior / mais me custam (...) quando a mesma exígua mesa / agora é uma mesa grande"
A mesa - José Craveirinha, Maria
...
Carrego no trinco, sem me esquecer do jeito sem o qual não abriria o portão grande e abro-o e entro. “O cão já conhece o motor do carro. Vá, faz-lhe lá uma festinha que o animalzinho também merece!”. E sem te ver ainda, neste lado do pátio, não é, de todo, difícil imaginar-te sentado no banco do alpendre, de chapéu de aba larga que te mandaram da América e camisa de flanela verde no pino do Verão. Partes nozes com um martelo na pedra de afiar as facas. Há uma semana atrás tinhas as mãos verdes de descascar favas porque sabes que eu gosto. E, então, penso que agora te entreténs com as nozes, com as favas, com os feijões, para não admitir que inventas nozes para partir, favas e feijões para descascar para estares, assim, sentado à mesa do alpendre, de olhos postos no portão, a esperar, ansioso, que por ele te irrompam netos. Festas feitas no cão, ponho mais entusiasmo do que aquele que sairia naturalmente num “É ‘vô! ‘Tão? ‘Tá tudo bem?”. E os olhos riem-se-te e “Antes de mais nada, ora vai ali ao aido e vê o que lá está!”. E eu vou sem perguntar mais, porque nos habituaste sempre a algo mais do que espantoso na sequência destas frases. Numa dessas vezes, tiraste a mão fechada de dentro de uma tangerineira, que secou há já um tempo, e quando a abriste aos nossos olhos esbugalhados de curiosidade, revelaste um gafanhoto tão grande, mas tão grande que nos custou um susto e um salto atrás. E rias-te. E nós riamo-nos a seguir, já ia longe o gafanhoto.
No fim do carreiro, onde acaba o muro de adobes, andas a estimar uma pequena parreira que, agora, carregada de framboesas, parece saída de um quadro. Confesso que já estava à espera e os olhos riem-se-te, outra vez. Este ano a cerejeira não deu cerejas e estás convencido de que foi por não ter sido neto rapaz a comer as primeiras do ano passado. “Dizem que as árvores ficam aneiras!”, seja lá isso o que for. Ora fico à espera que me mandes comer as framboesas, não vá para o ano não as haver.
Já dizes pela terceira vez que “isso andava atirado para aí e não dava nada e eu então espetei-lhe aí umas canas e olha: está carregadinha!” ao que eu respondo que “está tão linda com as framboesas que dá pena comê-las!”.
Soubesses tu do pouco valor que dou a framboesas e ficarias, certamente, bem triste.
Tens setenta e alguns anos e só agora parece que começo a acrescentar-tos. Sei lá eu porquê. Foste sempre assim e nunca te conhecemos menos velho. Desde que me lembro de ser gente contigo, as tuas mãos nunca foram menos ásperas nem o teu feitio menos previsível. Admirávamo-nos sempre que te víamos arrancar urtigas à mão, desfolhar as espigas de milho em três tempos, desviar as silvas do nosso caminho, dobrar as vergas para os cestos, atar os molhos com ervas que cortavam e amaciar o cabo da enxada com uma cuspidela, entre golpes na terra.
Ensinaste-nos a distinguir sapos de rãs e de relas e pardais de pintassilgos, e deleitavas-te a ver-nos empanturrar os melros caídos dos ninhos com água e papas da farinha dos pitos. E, incrivelmente, resistiam sempre, os pobres bichos.
E chegava a altura das batatas e recrutavas toda a gente. E ai daquele que se pusesse à frente do arado, ou confundisse a vaca com um “Ouo aíííí” ou um “Eixee vaca”. Ninguém ousava já desacatar as tuas ordens e os teus conselhos eram sempre os mais sábios e os mais certeiros. Como ninguém se atrevia a chegar-se às ninhadas de coelhos nas primeiras semanas, ou à caixa do milho onde pousavas as facas por altura da matança do porco, nem mesmo às pipas no celeiro quando mudavas o vinho velho. Couberam-me a mim alguns anos de limpeza da cuba que recebia o vinho novo. Quando deixei de caber na portinhola, e olhando para ela agora parece-me quase impossível algum dia ter lá cabido, encarregaste um neto mais novo. Se soubesses como me doeu a substituição! Gabavas o rigor da minha limpeza e sabias que nenhum canto daquele cubículo ficaria por esfregar com o pedaço de toucinho que me escorregava das mãos pequenas. Ninguém o fazia como eu, ainda o dizes. Acho que puxei a ti o gosto pelas coisas bem feitas. Sabes disso, agora.
Quando o último neto deixou de caber na cuba, na habilidade que te caracteriza, inventaste um sistema complexo de cabos e cordas, focos e esponjas na ponta de uma cana, mas quase inevitavelmente não era a mesma coisa e deixaste de ter vinho para mudar e não mais precisaste de limpar a cuba para o receber. É incrível como na vida os acontecimentos se sucedem e se fazem coincidir. Como rasgos de destino traçados. Sem volta a dar-lhes.
Ponho tanto de alegria como de saudade nesse tempo. Queria ter resistido mais manhãs aos Power Rangers, à Sailor Moon e ao Dragon Ball. Ter-me levantado mais vezes de madrugada e ter apanhado mais com o orvalho ainda frio na cara quando iam apanhar a erva para as vacas. Queria ter sofrido mais com os solavancos da carroça a caminho das terras e ter bebido mais leite ainda quente do úbere. Queria ter sabido que hoje teria saudades de levar o pacote de Planta debaixo do braço quando me mandavas à padeira e consolar-me com o pão quente e a manteiga derretida. E espantar-me com os bezerros a nascer, a periodicidade da postura dos ovos e da chegada das andorinhas para ocuparem os ninhos, nas traves de madeira do alpendre. Queria ter a terra quente entre os dedos dos pés e a cara fendida pelas bandeiras do milho. Queria ter chapinhado mais nos labirintos dos regos da água que puxavas do poço para regar o aido, ter montado mais armadilhas aos pardais e ter roubado mais salsa para não teres desculpa e fazeres bolos de bacalhau para todos. Se eu pudesse voltar atrás subiria à escada encostada à figueira e ficava lá, só para te ver ralhar como dantes por mais tempo e apanhava os damascos e os diospiros verdes. E fugia mais vezes na tua bicicleta para as corridas no beco e esmurrava mais os joelhos à conta disso. Faria mais das asneiras que hoje me deixam saudades, e estenderia a minha meninice eternamente só para não te ver agora, impaciente de testa franzida, à mesa do alpendre, ansioso que pela porta te irrompam netos.
Vou buscar a joeira e vou apanhar as framboesas. Talvez chegue a casa e faça gelado. E hei-de trazer-to, porque o que mais te mima agora é qualquer coisinha doce que te tragamos a par com a Visão da semana. Daqui a dias já vão estar os pêssegos e os damascos maduros e vais telefonar a dar conhecimento disso. E ninguém vai comê-los antes de nós. Vais garanti-lo.
Não foste avô de contar histórias connosco nos joelhos, mas de fazeres connosco a nossa história e hoje, não sei porquê, entre framboesas, ar puro e nostálgico, comovi-me com a precariedade desta vida e com a consciência do pouco tempo que dispenso contigo.
Há uma qualquer vontade de te homenagear pelo homem recto que és, pela habilidade que tens, pela perspicácia, pela preocupação, pelo Amor por detrás do rosto rígido que o tempo acabou por embrandecer.
És grande avô!

quinta-feira, junho 21, 2007

Para andar(es) em frente.

Beijinho no João Daniéééuuu...

Digo que importa muito, e tudo, ter uma grande e muito determinada determinação de não parar até chegar, venha o que vier, suceda o que suceder, trabalhe-se o que se trabalhar, murmure quem murmurar, quer lá se chegue, quer se morra pelo caminho, ou não se tenha ânimo para as dificuldades que nele há, quer se acabe o mundo.

Sta Teresa de Jesus

sexta-feira, junho 08, 2007

"Que negra sina ver-me [quase] assim..."

"(...) Lá estou para os ver, para os injectar, para os abrir, para os retalhar, para os coser, sempre a sorrir! "


... pera, pera, pera ...

Edit Post

... depois, como que por... (não há palavras)... encontram-se coisas que... nem sei!

Apreciai!


I


II

E deste alguém se lembra?! ...

terça-feira, maio 29, 2007

P'ra celebrar as borboletas que trazes no estômago.

Hoje, p'ra ti:

Quand il me prend dans ses bras, Il me parle tout bas, Je vois la vie en rose. Il me dit des mots d'amour, Des mots de tous les jours, Et ça m'fait quelque chose. Il est entré dans mon coeur, Une part de bonheur, Dont je connais la cause. C'est lui pour moi, Moi pour lui dans la vie, Il me l'a dit, l'a juré, Pour la vie. Et dès que je l'apercois, Alors je sens en moi Mon coeur qui bat.

Edith Piaf

segunda-feira, maio 28, 2007

Ordinary day (Dia normal)

Costumava deixar as flores que me davas no caminho da escola a secar nas páginas dos livros que sabia que lias. Mais tarde, foram poemas nas margens brancas ao lado dos textos, técnicos e enfadonhos, que sublinhavas. Ria-me sempre de imaginar-te rendido às promessas de amor inocentemente furtadas aos poetas dos tempos antigos com que juntos preenchemos, mais tarde, a estante comprada a meias. Escancarámos sorrisos às portas do coração ante o engenho posto no amor escrito daqueles trovadores do tempo dos reis, por não sabermos fazê-lo à sua maneira. Porque tínhamos o Amor na ponta dos dedos, nas palmas das mãos, no brilho aguado dos olhos, nas alegrias e nas tristezas que fazíamos, sempre, dos dois.
Mostrava os dentes nos sorrisos, punha outra entoação nas últimas palavras das frases. Deixava intenções nas entrelinhas da conversa, esquecia-me da mão no teu joelho. Mexia-te o açúcar do café e garantia-te o quadrado da tablete de chocolate preto ao lado. Tão religiosamente!

Quando penso no que nos fomos deixando ser chego sempre à conclusão de que nunca fomos tudo, para roçarmos sempre a inevitabilidade de podermos sê-lo. Ou não.
E há tanto para ser.

Je reve de toi (I dream about you) Plus près de moi (closer to you) I need you, I need you I need you, I need you Who loves you Who loves you Nos histoires (our stories) Nous separent (keep us apart) Je regrette ce temps qui passe. (i long for the time passing) It's an ordinary day Just an ordinary day Nothing much to laugh about Nothing much to cry about C'est comme ça du soir au matin (that’s how it goes from evening to morning) Y penser n'y changera rien (to think about won’t change a thing) Bien malgre moi, (even though i wish not) Tu vis en moi (you live inside me) I need you, I need you I need you, I need you Chaque jour se ressemble (everyday seems the same) A s'imaginer ensemble (thinking of us being together) On se manque et l'on se retient (we miss each other and we won’t tell) L'avenir semble si lointain (our future seems so far..) I need you pa ba da ba da I need you pa ba da ba da Tant d'espace (so much space) Nous separe (tears us up) Et si tu perdais ma trace (and if you were losing my track) It's an ordinary day Just an ordinary day Les jours se suivent et se ressemblent (days follow and remain the same) Separes mais toujours ensemble (apart but still together)

sábado, maio 19, 2007

Eu já estava a demorar.

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não pára... e quando o tempo acelera e pede pressa, eu recuso, faço hora e vou na valsa, a vida é tão rara... enquanto todo mundo espera a cura do mal e a loucura finge que isso é normal, eu finjo ter paciência... O mundo vai girando cada vez nais veloz, a gente espera do mundo e o mundo espera de nós um pouco mais de paciência... será que é tempo que lhe falta para perceber, será que temos esse tempo pra perder e quem quer saber?! A vida é tão rara... tão rara... Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não pára... a vida não pára nao... será que é tempo que lhe falta para perceber, será que temos esse tempo para perder, e quem quer saber?! A vida é tão rara... tão rara... A vida é tão rara.

sábado, maio 12, 2007

(Ainda) Fátima Jovem 07

D. Ilídio Pinto Leandro
Bispo de Viseu e Presidente da Peregrinação "Fátima Jovem 2007"
Neste dia e neste lugar saúdo, em vós, caríssimos jovens, todos os jovens de Portugal: aqueles que, como cristãos, vivem a mesma Fé, nos seus grupos e nas suas dioceses, e aqueles que, não vivendo uma relação efectiva com Jesus Cristo, buscam a felicidade e realização pessoal, investindo as suas energias e capacidades na construção de um mundo melhor. Saúdo o Departamento Nacional da Pastoral da Juventude e todo o seu esforço por apontar caminhos e por propor estratégias para, nesses caminhos, convidar todos os jovens a viver a sua juventude cheia de valores, a partilhar em grupo e nos ambientes onde cada um se insere. Neste dia da Mãe, saúdo, convosco, Maria, a Mãe modelo e referência pelo seu amor à vida e à Fonte da Vida que irradia em todos nós vida em abundância. Nela, saúdo e rezo por todas as vossas Mães e por todas aquelas que acolhem a vida com alegria, com entusiasmo, amor, respeito e gratidão.
Celebramos um grande dia – o Fátima Jovem 2007 – com um tema exigente, somente capaz de motivar jovens exigentes e decididos a olhar de frente a vida, a própria, a dos outros e a da sociedade em geral. É um dos temas contra a corrente, que somente se partilha com os amigos e que tem sentido reflectir, somente quando se tem a certeza que se é compreendido. “Renuncia a ti mesmo! Pega na tua Cruz!”
É um tema vocacional no sentido pessoal e comunitário, que nos convida a olhar o texto e o contexto, pois as implicações são mesmo sérias, exigentes, com consequências certas, ainda que, de todo imprevisíveis.
Primeiro, supõe encontrar um ideal e fazer, por ele, uma séria opção. Depois, exige uma correcta estratégia, cortando com o status quo – o de cada um de nós e o dos ambientes que nos tocam e nos quais estamos inseridos…
Qual será esse ideal? É apontado na Palavra de Deus deste Domingo. Começa com um sonho (2ª), termina numa opção (2ª) e concretiza-se numa estratégia (3ª). Qual é o sonho? Ver e acreditar num futuro novo, numa sociedade nova, acabando com o pessimismo e a sina de lamentarmos uma sociedade decadente, velha e ultrapassada. Estamos cheios de conhecer e experimentar soluções falhadas, provocadas pela violência sem horizontes; pela ciência sem consciência; pela técnica sem pessoa e sem alma; pelo fácil sem compromisso; pelo prazer sem amor e sem responsabilidade; pela corrupção sem espírito crítico, sem vergonha, sem emenda e sem respeito pelos outros.
Qual a opção a fazer? Fazermos nossa a opção de Quem está sentado no trono, como nos diz a 2ª leitura – “vou renovar todas as coisas”.
A estratégia?!... Essa é constituída pelas exigências da Nova Evangelização: aventura; sonho e entusiasmo pela novidade; acto de fé na mudança; empenhamento para que tudo aconteça; sentir-se convocado e tornar-se o primeiro aliado da missão. Numa palavra, a estratégia é viver o Mandamento Novo do Senhor em toda a sua exigência, como nos vem descrito no Evangelho.
Caríssimos jovens, dizei a sério: estais satisfeitos com esta sociedade? Quereis continuar este caminho, sem futuro e sem retorno? Achais que é possível mudar e fazer melhor? Quereis empenhar-vos por dar o vosso contributo para uma nova Sociedade?...
Está aqui o segredo para a leitura do tema da nossa Peregrinação: Renuncia a ti mesmo!... Pega na tua Cruz!... É difícil? Sim, mas é possível. Sabeis que temos um Modelo!… O Seu nome é?!... Sim, é Jesus. Ele renunciou a viver a Sua Divindade junto do Pai, encarnando todas as situações dolorosas da Sociedade, do Seu e do nosso tempo; acreditou que era possível e fez a opção mais coerente, embora mais difícil; veio para junto de nós, pegando na Cruz da intolerância, da injustiça, da mentira, da corrupção, da morte… E, fazendo da estratégia o Seu caminho de vida, amou até ao fim e apontou-nos a Sua como a nossa estratégia – “Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos: se vos amardes uns aos outros”…
Está aqui o caminho para a mudança e para realizar o ideal de uma Sociedade Nova – implantar a Civilização do Amor… Com o Amor virá a justiça, a solidariedade, a paz, o respeito, a alegria, a verdade, o bem, um mundo novo e um futuro melhor… Esta estratégia está no Evangelho de hoje; foi experimentada; deu resultados e está provado que é o único caminho para a mudança… É a aventura do amor recíproco; é o sonho de uma Sociedade justa; é a mudança para uma nova Civilização, a do Amor; é a promessa de um futuro melhor; é a convocatória de todos nós para sermos aliados de uma Nova Evangelização e de uma Nova Igreja… Vós, caríssimos jovens, sois os primeiros destinatários deste convite e desta vocação…
Dizei-me, então, caros jovens: acreditais em Jesus Cristo e nas Suas propostas?... Quereis, ao jeito dos Pastorinhos de Fátima, oferecer-vos para colaborar com Jesus e com a Sua mensagem?... Então, não tenhais medo de mudar os vossos hábitos, se eles são burgueses, velhos e comodistas!... Renunciai a tudo o que é sinal de violência, de hedonismo, de corrupção, de ódio, de vingança, de preguiça, de pessimismo!… Pegai na Cruz do Amor, da solidariedade, da justiça, da coerência, da verdade, da paz e tornai-vos mensageiros e apóstolos desta mudança e desta opção que transformará o mundo, quando (e depois de) transformar cada um e cada uma de vós!…
Renunciai a tudo o que seja sinal de morte, ainda que esteja na moda ou seja o parecer da maioria e pegai na Cruz do amor e sentido da vida, amando e respeitando toda e qualquer pessoa humana, nas suas diferenças culturais, sociais, raciais, políticas ou religiosas!… Renunciai à destruição da família, ainda que pareça mais fácil e seja mais moderno e pegai na Cruz dos valores do matrimónio, da sexualidade, vivida no amor e na entrega, da beleza e grandeza da castidade e da responsabilidade!… Renunciai ao facilitismo e à superficialidade de uma Fé sem conteúdos e sem compromissos e pegai na Cruz da formação permanente e das consequências da Eucaristia e da Oração na vida e nos ambientes!… Que Maria, a Mãe, Aquela que fez a opção de ser acolhedora da Palavra do Pai, dando à luz o Amor tornado Pessoa, em Jesus Cristo, nos ajude a saber pegar na nossa Cruz e a termos coragem para renunciarmos a tudo o que nos impede de fazer as verdadeiras e necessárias opções, ao serviço da urgente mudança e da necessária renovação de todas as coisas. Nós vos pedimos, ó Mãe, que intercedais por nós ao Pai do Céu, pela mediação de Jesus Ressuscitado, vosso Filho, que vive na unidade do Espírito Santo. AMEN!... ALELUIA!...
Uma grande proposta, um grande desafio. Válido para ti e para mim, jovens cristãos, para ti amigo desatento, para vocês colegas e amigos descrentes "aqueles que, não vivendo uma relação efectiva com Jesus Cristo, buscam a felicidade e realização pessoal, investindo as suas energias e capacidades na construção de um mundo melhor". Uma mensagem que, sem nada ter de extraordinário, parece, tantas vezes, tão para lá da nossa vontade. Compromisso é a palavra-chave.
Um texto para guardar e ir relendo.

terça-feira, maio 08, 2007

Fátima Sara 2007

6 de Maio de 2007 , 22:30

É, muitas vezes, difícil começar a escrever sobre coisas muito diferentes. Sobre as coisas que nos fazem felizes, sobre as coisas que não nos fazem tão felizes, sobre as coisas que nos magoam, sobre as coisas que nos restituem a alegria, sobre as coisas do passado, sobre as coisas do presente e sobre as coisas que são planos de futuro.
E enquanto me decido por onde começar, já que é tão difícil começar a escrever sobre coisas tão diferentes, começa a ser tão complicado começar a escrever sobre coisas tão diferentes como são as coisas que mexem connosco, que não seria de admirar que começasse por escrever que, realmente, é, muitas vezes, difícil começar a escrever sobre coisas muito diferentes.
Não tenho dúvidas de que se o peito tivesse um chão que me sustivesse a mim, a meia dúzia de papéis e a um lápis amarelo e preto pouco afiado HB2, seria aí que eu me sentaria encostada ao coração, para escrever no extremo do sentimento, onde estou agora.

(Tenho um zumbido nos ouvidos. Deve ter sido do sol na cabeça. Contento-me com a vulgaridade do diagnóstico. Pois bem…)

Não tenho grande memória. Nunca tive. Há muitas coisas de que não me lembro e tenho pena. Sei que daqui a um tempo vão restar poucas lembranças e que muitas delas só me serão devolvidas pelas imagens, conversas e palavras de outros. Mas não me esquecerei nunca de que tudo aquilo de que não me lembro foi vivido no limiar da plenitude. E isso contenta-me. Muito. Muito!

Fátima Jovem 2007 foi mais uma grande experiência e uma grande experiência em grande. Fomos muitos. Fomos 70. Fomos 700. Fomos milhares.
Começamos por caminhar umas horas. E que difícil que foi o caminho durante a primeira hora. Havia ainda muita energia nas passadas e isso valeu mais naquele terreno incerto e de terra vermelha. Trouxemos na memória do olfacto as lufadas de alfazema, de tomilho e de rosmaninho com que a natureza nos pontuou o caminho. A paisagem era bonita, mas ficou perfeita quando completada por um serpenteado colorido de jovens que começavam uma caminhada, em mês de Maria, rumo à casa de Maria que os acolhe há já muitos anos, sempre por esta altura.
Houve tempo e espaço para muitas coisas. E que fácil que era deixarmo-nos simplesmente conquistar pela natureza que nos envolvia, pelas pessoas que nos rodeavam, pelas notas e palavras misturadas com risos e sorrisos, canções, brincadeiras e muita alegria.
Fizemos opções, como nos exige a Vida a cada instante. Boas, menos boas, cooperantes ou não. Mas todo o caminho que é caminho acaba por nos pôr as dificuldades e as barreiras características que, somadas aquelas que, sem necessidade, lhe acrescentamos, acabam por nos dificultar o percurso. Quem dera que se tenham arrecadado as pedras e que se construam castelos. Um dia.
Já no santuário houve tempo e espaço para nos encontrarmos com Maria e lhe abrirmos o coração. Escolhemos o sítio para nós ideal, deixámo-nos ficar enquanto quisemos.
Fátima tem isto de nos levar até lá sem qualquer esforço. Sem qualquer esforço, vamos por ser assim. Sem sacrifício algum, apesar das plantas dos pés doridas, das bolhas, das pernas cansadas, do frio ou do calor, da fome e da sede, do cansaço de cada um. Mas Fátima leva-nos e nós vamos. Cativa-nos e nós ficamos. Envia-nos e nós voltamos com vontade de regressar. Fátima com jovens chega ao âmago de cada um e chegou ao meu. Ainda me arrepia lembrar-me da meia hora de espera, antes de entrarmos no auditório Paulo VI. Aquele tecto é tão baixo e nós saltámos tão alto. Aquele espaço é tão pequeno e nós gritamos com tanta força. Em cada ano aquela meia hora e o tempo que dispensamos no auditório são diferentes. Em cada ano os muitos que lá estamos, a força com que cantamos, a energia com que saltamos, renovam em mim a esperança nos jovens que somos, mas também a revolta de, sendo tantos e transbordado tantas formas diferentes de energia que conjugadas são quase transcendentes, ainda não nos termos empenhado verdadeiramente na mudança deste mundo.
À noite, a recitação do rosário, como Maria pediu um dia a três crianças, estreitou laços invisíveis e até imperceptíveis entre nós. A oração em grupo faz-nos chegar mais longe com as nossas motivações e desvanece em nós as preocupações, as dúvidas, as nossas dificuldades de cristãos na sociedade de agora, porque somos muitos, porque nos partilhamos e estamos reunidos em nome dEle e em comunhão com o Mundo.
O auditório Paulo VI voltou a acolher a vigília que este ano se centrou no ecumenismo e na cruz ecuménica. E foi bonito. Pôs-nos à prova a vontade com que deixamos Deus estar e ficar entre nós, com que nós vamos querendo estar com Ele.
Eleger um momento marcante deste encontro Fátima Jovem não me é possível. Não procuro a excelência de um momento para lembrar para sempre. Não faço isso com nada. Gosto de ser assim. Gosto de saber maravilhar-me, sem esforço, com todas as coisas e de reconhecer nelas a mão de Deus. Nas mais grandiosas e nas mais insignificantes, nas mais vistosas e nas mais imperceptíveis.
Atentar nos sorrisos ainda tímidos, à partida, de quem vai pela primeira vez, no brilho dos olhos rasos de expectativa de quem já sabe ao que vai, no nervosismo de responsabilidade de quem aposta em nós, nos cheiros do caminho, nas pedras que rolam por baixo das botas e quase me fazem escorregar, nas formas em que, em grupo nos dispomos, ao fazer o caminho, nos rebuçados que partilhaste comigo, na pressão do abraço que me deste, na gargalhada com que me encheste os ouvidos, nas nuvens que ameaçavam chuva, nas encruzilhadas onde já tínhamos discutido caminho, nas palavras que troco com quem ainda não conheço, naquelas que troco com quem já conheço, nas conversas sem sentido, nas piadas sem piada, nas pulseiras vermelhas, nas fitas verdes, nos comboios e “combóiadas”, na luz da minha vela, na procissão de luzes de milhares de velas e da nova perspectiva deste ano, na inclinação amorosa do rosto de Maria, na oração pela mãe que tenho, no silêncio, no cansaço, na tão desejada água quente do banho, no colchão que temos este ano, no repouso, na oração às refeições, nas palavras daquela irmã de sorriso tímido mas tão pleno, no tempo que vão demorar a deixar-te dormir hoje, no teu aniversário, na broa e na chouriça que trouxeste para partilhar connosco, na tua irresponsabilidade que me faz sentir que há mais por onde posso ajudar, na certeza de que tu vais para casa mais preenchida e com vontade de voltar, na certeza de que vocês serão “nossos meninos” um dia, na expectativa de vos mostrarmos como Ele nos basta, na letra das canções, em ti que eu mal conhecia, no teu sorriso transbordante de felicidade e nas histórias de missão que contaste, no diminutivo “Sarinha” com que ainda me tratas, nas ararutas com doce, queijo e fiambre, nas ararutas “com nada”, nos ursinhos vermelhos de comer e nos trajectos esquisitos que percorrem até chegarem ao estômago, na flor que me deste sem me conheceres, nas palavras que não disse, no choro que contive, na desilusão que me causaste, na conversa que ainda não tivemos, nos Magnun que comi e que eram uma doidice, na reflexão na amizade que temos, na certeza de que continuará, na confiança que depositaste em mim, nas parvoíces que disseste e fizeste, na homilia que me fizeste chegar ao coração, nas palavras que usaste, nas questões que levantaste e nos desafios que nos deixaste, na palavra “envio” que repetiste, na perspectiva de “cruz” que nos mostraste, nos milhares de lenços brancos, na palavra “adeus” e no fechar os olhos para sentir sem ver, na cor que predominava, na fotografia de grupo, nos saltinhos tontos e no “um, dois, três”, no fazer o saco e no aperto de nostalgia que aparece sempre nessa altura, na chamada cuidadosa por cada um de nós à entrada do autocarro, na pouca queda que tenho para as cordas e para as palhetas, no caminho de regresso, no lugar que escolheste, nas risadas estridentes, nos teus vários sonos interrompidos, nos voos das canetas de uma ponta à outra do autocarro, nas dedicatórias dos lenços brancos, na chegada à nossa terra e ao nosso ringue, no abraço colectivo no jardim e no “Voa bem mais alto com o “quero tudo abraçado e a cantar para acabar” que nunca falha, na simpatia da boleia para casa, na coincidência de quem parece estar lá de propósito à espera para que o teu carro possa arrancar, na entrada em casa, na docilidade da Laila que me espera, nos saltos dela e nas lambidelas fieis, no barulho das fitas da porta da cozinha que te faz olhar para trás, no beijo em ti mãe porque é o teu dia, nas poucas palavras que disse porque vimos sempre assim, no jantar que esperou que eu chegasse, no turbilhão de sentimentos que tive na cabeça enquanto fazia o saco para voltar a Lisboa, na cama onde estou agora, no zumbido que tenho nos ouvidos e que afinal se deve dever à quantidade infindável de coisas que trouxe e que ainda não organizei nas gavetas da memória, na oração da noite, na certeza de que o sono será tranquilo e de que me vai restabelecer, no dar graças pela possibilidade de ir, ser e estar inteira em tudo o que vivi.
Obrigada a Ti e a cada um.

“Toma a tua Cruz e segue-Me vive sem medo de te dares (…) Pára para veres tudo aquilo que és, é no teu amor que Ele está.”