segunda-feira, abril 27, 2009

"Eu queria ter barra nesse cais / p'ra quando o mar ameaça a minha proa."

Entre Santarém e Vila Franca de Xira há uma boa parte do caminho-de-ferro que por esta altura fica ladeada por dois corredores imensos de malmequeres amarelos entre os quais aparecem papoilas vermelhas a salpicar o cenário aqui e ali. Há quatro anos que reparo neste quadro muito Monet e há quatro anos que o acho só bonito.

Mas ontem precisava daqueles malmequeres ali para me lembrarem que volta e meia há flores a ladear caminhos que são de liberdade, opções que tomámos um dia, escolhas como as que agora me fazem apanhar o comboio ao Domingo, sendo muitas mais as vezes em que entro com ânimo do que as vezes em que entro sem ele. Ainda assim há dias em que a falta de vontade para travar as minhas lutas vem com um cansaço que me deixa ao espelho embaciado a criar interrogações sérias e a pensar. E quanto mais penso mais concluo que são as escolhas mais livres que nos dão os maiores trabalhos. Felizmente, e na maior parte das vezes, o espelho vai-se desembaciando ao longo do dia.

O trabalho está em arranjarmos uma e outra vez razões, que não se gastem, para levarmos adiante aquilo por que optámos, um dia, em consciência. Certa de que também eu vou mudando, preciso às vezes de subir à árvore, esperar que Passes e que me Chames e que me Ordenes a minha parte. Não quero esquecer-me do dia em que – reparo agora que há já tantos anos – se fez luz e entendimento em mim. Quero lembrar-me do dia, da hora, das cores que inspiram agora cada dia meu que nasce para prosseguir segura de que os malmequeres amarelos devem é nascer à medida que avanço livre neste meu sentido único.

* * *

Há uns bons tempos "encontrei-me" com este senhor.

Há uns dias "auto-mimei-me" com um dos dois livros que reúnem muita da obra que já estava publicada mais dispersamente e alguns inéditos.
Só há umas horas - porque cada poema é lido e cada adjectivo mastigado até apurar o sentido que o autor lhe daria se o tivesse escrito para mim - encontrei este e fiquei a pensar se algum dia este senhor não se terá, de facto, encontrado comigo, também.



SARA

Sara senta-se nos degraus das casas destruídas

Sara é o nome do deserto
É o nome da videira estéril
É o nome à espera de ter filhos

Sara está velha de estar
Sozinha. Está sentada e desfaz
A bainha dos seus vestidos.

Daniel Faria

terça-feira, abril 14, 2009

Quem é que não gosta de Coca-Cola? Quem é que não quer ser feliz?

Até agora a Coca-Cola só fazia bem à diarreia.

Agora faz bem ao espírito, também.

"Estás aqui para seres feliz!"

=)

segunda-feira, abril 13, 2009

[escapes]

tinha aprendido que era muito importante criar desobjectos.
certa tarde, envolto em tristezas, quis recusar o cinzento. não munido de nenhum artefacto alegre, inventei um espanador de tristezas.
era de difícil manejo – mas funcionava.


"às vezes uma chuva molhada é uma coisa boa para escorregar momentos em direcção a mim. quando uma chuva molhada cai sobre o mundo redondo, as coisas da vida e a vida das coisas encontram-se num quintal vasto. foi sob uma chuva molhada em canduras que encontrei as barbas do meu pai num poema e o sorriso da minha mãe noutro. foi nas entrelinhas dum poema ensopado que encontrei, várias vezes, a autorização interna pra falar a palavra amor [vou tentar não apagar isto: eu tenho certo receio da palavra amor, espero só que ela não me tenha receios também; seria triste].
foi com as mãos sujas de restos de amor que estiquei uma madrugada. quando digo a palavra madrugada também sinto um esticão no coração. se agora abuso muito das madrugadas é porque cada uma delas tem restos de amor que eu sempre vou perdendo. qualquer dia acumulo esses restos todos e faço uma construção de amor [talvez chame uma mulher pra se encostar ao outro lado dessa construção]. a palavra amor pode ser um labirinto com mais de catorze lados avessos. depois de esticar uma madrugada encosto a madrugada na minha pele e espero. a pele gosta de ser esculpida de novo muitas vezes na vida.
se puser um «v» na palavra esticar, poderei estivar uma madrugada. aí elevo-me a estivador de madrugadas e posso pensar num caixote com luar, um caixote com geada, caixotes pesados de estrelas, caixotes de nuvens carregadas de pingos, um caixote hermético com lágrimas, uma caixinha de costura com restos concretos de amor.
as palavras são muito bonitas também porque têm significados cicatrizados nelas – falo a palavra kwanza e sou invadido pelas belezas de um rio e o sol todo a bater-lhe nas peles da água escura que ele tem. o rio transporta o barro e os peixes e nunca ninguém se queixou de cócegas. há qualquer coisa de jangada na palavra rio. liberdade seria abraçar um jacaré sem lhe apetecer provar-me. eu queria fazer festinhas na carcaça antiga de um jacaré mas se ele me fizer festinhas magoa-me. vou olhar o jacaré de longe e o rio de perto – provar as minhas mãos nele. a pele do rio tem mais espelho que a minha e que a do jacaré. o céu e o sol gostam de verter reflexos nas peles paradas do rio kwanza e eu gosto de saber isso com os meus olhos atónitos de humidade. ali onde o mar beija o rio a espuma celebra o evento com pássaros que perseguem peixes. assim a poesia seja salobra ou salgada.
seria bonito ver os mangais depositarem raízes num poema meu – era a minha maior alegria fluvial.
há qualquer coisa de sapiência na palavra tristeza. e algumas tristezas não são de espanar – um dia posso descobrir que elas me fazem falta e ter que ir buscá-las na lixeira da catin ton.
vou encher-me de silêncios e imitar as pedras. adormecer entre as pedras pode ser que me contagie delas. depois de conseguir ser pedra vou exercitar o sorriso dessa pedra que eu for. com esse sorriso vou iniciar uma construção...
uma construção pode bem ser o lado avesso de uma certa tristezura."




materiais para confecção de um espanador de tristezas, ondjaki


domingo, abril 05, 2009

"Gosto de ti como quem gosta do Sábado."

Madrinha, madrinha... podemos brincar à apanhada sem tirar um dos pés da areia?
...
'Bora lá.

...

quinta-feira, março 19, 2009


o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores
ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa,
silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida
, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto
,
o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo,
o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele,
é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem,
é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrófes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.

José Luis Peixoto

O poema não se escreve com letras. O poema é quando os amigos se lembram de nós.

Obrigada, Patrícia.

Um beijinho...


quinta-feira, março 12, 2009

domingo, março 08, 2009

"Mestre, como é bom estarmos aqui!" Mt 17, 1-9

Porque confiei que Tu me darias sempre outra oportunidade para que eu voltasse uma e outra vez e pudesse beber do essencial das primeiras fontes.
Porque precisava deste tempo a sós Contigo e com o outro que caminha comigo, porque não trilho veredas sozinha em momento algum, porque há Vida, há Luz, há Esperança.
Porque deponho as máscaras de quase todos os dias e sou mais eu quando estou Contigo. Sou mais Eu, assim, no tempo que faço Teu, nos braços que me esperam e me acolhem sem perguntas ou ressentimento, nos momentos em que a Palavra se revela verdadeiro pão e sacia, como poucas vezes, a minha fome do Teu estar, do Teu Amor.
Porque não há no mundo lugar maior ou mais seguro do que aquele por onde Tu andas quando eu Te deixo andar comigo.
Porque só este é para mim o sentido autêntico do tempo que me cabe, que não tenho mais nem outro.
Porque os sonhos perdem a forma e o tamanho de tão extravasados. Porque o entusiasmo perde os limites que lhe vou pondo. Porque a vontade e o ânimo perdem a medida que têm tido. E, por fim, esvazia-se o copo repleto que não levava o essencial.
E tudo parece ficar a ser mais do que possível. Mesmo muito mais do que possível.
Amen.


"Pegadas na areia, / um trilho teu, / talvez o que quiseste marcar. /De pegada em pegada / deixei o meu trilho marcado / numa areia, numa vida / sempre contigo ali ao meu lado, ao meu lado."

segunda-feira, março 02, 2009

Da Quaresma, do jejum, da abstinência... e de outras coisas.

"Não jejueis como tendes feito até hoje, se quereis que a vossa voz seja ouvida no alto.
(...) O jejum que eu aprecio é este - oráculo do Senhor Deus:
Abrir as prisões injustas,
desatar os nós do jugo,
deixar ir livres os oprimidos,
quebrar toda a espécie de jugo;
repartir o teu pão com o esfomeado,
dar abrigo aos infelizes sem asilo,
vestir o nú,
e não desprezar o teu irmão.
(...) Se tirares da tua casa toda a opressão, o gesto ameaçador e o falar ofensivo;
se deres pão ao faminto, e saciares a alma do pobre
(...) então encontrarás a tua felicidade no Senhor."


Isaías, 58


sábado, fevereiro 28, 2009

Da chuva que traz as coisas tristes.

Raindrops keep fallin' on my head and just like the guy whose feet are too big for his bed nothin' seems to fit. Those raindrops are fallin' on my head, they keep fallin', so I just did me some talkin' to the sun and I said I didn't like the way he got things done, sleepin' on the job. Those raindrops are fallin' on my head, they keep fallin'. But there's one thing I know: the blues they send to meet me won't defeat me, It won't be long till happiness steps up to greet me. Raindrops keep fallin' on my head but that doesn't mean my eyes will soon be turnin' red. Cryin's not for me. 'Cause I'm never gonna stop the rain by complainin'... Because I'm free. Nothin's worryin' me, It won't be long till happiness steps up to greet me.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Coming soon

27 Março - CCI - 21h30m

terça-feira, fevereiro 24, 2009

My Sunset Poem


(O pintor Cândido Teles dizia que não há outro lugar no mundo com esta palete de cores à hora de se pôr o sol - haverá outras, com certeza. Mas eu concordo com ele. É por isto que gosto da minha terra. Do meu Soalhal. Invejem-me que eu deixo.)

* * *

terça-feira, fevereiro 17, 2009

"Mira, amor!"

Hoy el mar es más azul que el cielo!

No sé por qué, pero necessitaba decírtelo
porque, sentiéndome cansado, sé perfectamente
que me fatiga no viene de la tierra, sino de esse lugar azul,
de ese largo camino extenso que me hace pensar.

...

Hoy el mar es más azul que el cielo!

João Gil / Ricardo Ribeiro / Ruben Alves

(a mim não me faltam caracóis...)

terça-feira, fevereiro 03, 2009

sábado, janeiro 31, 2009

Coisas de ser Sábado.

Ir ter com o meu avô é como ir beber de uma fonte a sabedoria que vem do tempo e das coisas vividas. O meu avô ensinou-me a ser nostálgica como ser nostálgica faz bem. O meu avô tem sempre uma história sobre o mar ou sobre o tempo em que era novo ou uma opinião sobre a actualidade que ele lê ou que ele ouve ou que ele vê para mim e hoje tinha bilharacos, também. O meu avô é mesmo avô porque o meu avô remata o que quer que eu diga em jeito de queixa com duas ou três palavras e eu mato a sede semanal de alguma compaixão num gole de palavras claras e conselhos elementares - “É mesmo assim! Tem que ser a andar para a frente.” – que para dizer a verdade são os que mais me faltam, os que me bastam e os que mais procuro junto dele. São previsíveis mas são do meu avô. São sábios assim e são dos que mais preciso.
O meu avô é um homem cismático e é (quase) careca. Isto explica ele ter um secador de cabelo. Sim, explica. O meu avô cisma que o mínimo frio que o apanhe desprevenido o vai constipar, o que exigiria, no mínimo, uma semana entre a cama, os livros e a televisão. O meu avô tem, portanto, um secador de cabelo e é careca. No Inverno o meu avô aquece uma meia com o secador de cabelo e calça-a. Aquece a outra meia e calça-a. Aquece a camisa e veste-a. Aquece a camisola e veste-a. Aquece as calças, os sapatos um por um e assim por diante. O meu avô aquece o boné de flanela, põe-o e, finalmente, aquece assim a sua careca. E eu não tenho como achar estranho que o meu avô careca tenha um secador de cabelo.
Ai o meu avô, o meu avô...

sexta-feira, janeiro 02, 2009

"I wish, I wish, I wish, I wish, I guess it never stops."

Padrón, Agosto 07
***
Caminhar
v. tr., percorrer certo caminho, andando;
v. int., andar, mover-se; percorrer caminho a pé; encaminhar-se; dirigir-se; tender;

terça-feira, dezembro 30, 2008

"(...) Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar. (...) Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive."
Procura-se um amigo, Vinicius de Moraes

sexta-feira, dezembro 26, 2008

À beira da decisão é sempre o lugar mais difícil de se estar.


Os dias que passaram são dos mais propícios do calendário aos desejos, aos votos, às intenções de qualquer coisa. Oferecem-se e recebem-se presentes, visita-se a família menos chegada e acolhe-se em casa quase sempre só aquela que é a mais querida. A televisão amolece-nos o coração com as carências e os rostos que parecem ausentes no resto do tempo e lá se faz a boa acção do Natal desse ano. Fazem-se votos de boas festas a quem se cruza connosco, força-se um perdão numa zanga antiga, põe-se uma nota maior na caixa das esmolas, deixam-se uns brinquedos à porta de uma instituição, não importa: à mesa da consoada faz-se por que sobeje mais do que comida e não falta o sossego na consciência. Ainda que as Boas Festas saiam não sentidas entre a pressa de chegar não sei onde e sacos de compras, que o perdão seja fugaz, que não se procurem os frutos das nossas esmolas ou se fique à porta da instituição, sem se entrar para não se conhecer. Posto assim nem é que soe mal de todo. Mas é possível mais!
Parece-me sempre que nem chegamos a dar na medida daquilo que recebemos. E como recebemos muito mais nesta altura damos mais mas acabamos a dar só um pouco mais do que no resto todo do ano. E os Natais sucedem-se fartos de coisas, pobres de sentido e iguais ano após ano.
Lembro-me, por exemplo, dos que tendo alternativa melhor escolhem passar a noite mais longa do ano com os sem-abrigo nas rondas nocturnas habituais que lhes garantem a refeição quente, completa e muitas vezes única do dia ou a servirem numa consoada improvisada que reúne numa tenda os que normalmente habitam os vãos de escadas, os passeios sob varandas, os cantos mais escondidos e envergonhados das cidades, os que são literalmente as margens da sociedade que somos todos. E digo margens e não marginais porque como as moedas nada neste mundo tem um só lado, um só e único sentido. Ser margem deixa de ser só estar à parte quando ao fazer-se experiência com estas margens nos fica a vontade de atracar, de ancorar e não mais seguir incauto num qualquer afluente que não é verdadeiro rio. E nunca vamos tarde!
Passada uma semana sobre o Natal chegará outro dia onde desejos, votos e intenções serão senhores a que brindaremos com taças cheias. Doze passas com doze desejos para os mais tradicionais ou corajosos ou optimistas. Doze passas para uma única resolução de Ano Novo para mim. Desta vez “pouco, pequeno e possível”, como ouvi há dias.
A ver se vou longe.

domingo, dezembro 21, 2008

2

nada entre nós tem o nome da pressa.
conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. porém,

se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas –
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. entre nós

o tempo desenha-se assim, devagar.
daríamos sempre pelo mais pequeno engano.

Maria do Rosário Pedreira

*

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Embalo II

You're a part time lover and a full time friend. The monkey on you're back is the latest trend. I don't see what anyone can see, in anyone else. But you. Here is the church and here is the steeple. We sure are cute for two ugly people. I don't see what anyone can see, in anyone else. But you. We both have shiny happy fits of rage. I want more fans, you want more stage. I don't see what anyone can see, in anyone else. But you. You are always trying to keep it real. I'm in love with how you feel. I don't see what anyone can see, in anyone else. But you. I kiss you on the brain in the shadow of a train. I kiss you all starry eyed, my body's swinging from side to side. I don't see what anyone can see, in anyone else. But you. The pebbles forgive me, the trees forgive me. So why can't, you forgive me? I don't see what anyone can see, in anyone else. But you. Du du du du du du dudu. Du du du du du du dudu. I don't see what anyone can see, in anyone else. But you.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Embalo.


Daydreamer, sittin’ on the seat / Soaking up the sun, he is a real lover, makin’ up the past and feeling up his girl like he’s never felt her figure before. / Jaw-dropper / Looks good when he walks, is the subject of their talks. / He would be hard to chase, but good to catch and he could change the world with his hands behind his back, Oh… You can find him sittin’ on your doorstep. / Waiting for the surprise. / It will feel like he’s been there for hours and you can tell that he’ll be there for life. Daydreamer, with eyes that make you melt, he lends his coat for shelter plus he’s there for you when he shouldn’t be, but he stays all the same, waits for you and then sees you through. There’s no way I could describe him / All I say is, just what I’m hoping for / But I will find him sittin’ on my doorstep / Waiting for the surprise /It will feel like he’s been there for hours / And I can tell that he’ll be there for life / And I can tell that he’ll be there for life.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

03 / 12 / 08

Tenho umas dezasseis semanas tão pouco mais curtas do que os dezasseis anos da minha mãe que não me quer! Vim à urgência com uma dor dela mas que era uma dor que ela não tinha. Só não me quer a mim e às minhas já seis semanas a mais do que as dez. Não me quer com as minhas dezasseis semanas e essa dor é já a minha dor. Alguém lhe explica que há seis semanas que não tenho as dez semanas que ela quer. Ela faz que não quer acreditar. Diz que não sabia de mim apesar da barriga que não engana ninguém. Não me engana a mim. Não engana ninguém. E espantam-se. Devolve com desprezo a minha primeira fotografia e vira costas. Onde vai? Para onde me carrega? Não sei se chegarei a chamar-me alguma coisa. Talvez sim, talvez não. Talvez não…
Tenho trinta e oito semanas e de me querer tanto e com tanta força a minha mãe cansou-se. Alguém vai ter que abrir a barriga da minha mãe porque eu já sofro com o impasse. Dizem. Alguém corta a barriga da minha mãe e um par de mãos agarra-me com firmeza. Nasço num impulso para o peito da minha mãe que me quer tanto que se cansou até não poder mais. Estou azul, não choro, não me mexo e o meu coraçãozinho não dá de si. Gero agitação à minha volta. Algo se passa. Alguns muitos minutos passados reajo aos tubinhos que me puseram. Tusso. O meu coração bate já com mais ânimo e já respiro por mim. Quero voltar. E volto num “bebé palerma!” que uma menina de caracóis que me olha agora enternecida diz num alívio alegre de quem vê dar-se vida com fôlego à Vida. Os meus pais querem-me muito e vão chamar-me Kevin.
A Vida fascina-me e espanta-me, desde que me conheço, sob todas as formas. Quando era pequena as larvas viravam borboletas. As andorinhas, os pardais e os melros, os ninhos e os ovos e as crias aconteciam sempre na mesma altura do ano e à espera que viessem aborrecia-me e, enquanto isso, havia plantas que brotavam de feijões em algodão húmido. E mais, muito mais. E por isso sempre tive muito a curiosa mania que era uma mania curiosa de espreitar todos os ninhos de pássaros que não transpusessem muito as minhas vertigens, bisbilhotar todos os ninhos de coelho e aqueles que os ratos faziam dentro dos tijolos largados nalgum sítio. Fiz canteiros de girassóis e, impaciente, esperei que a primeira haste irrompesse por entre os grumos de terra. E, quando surgia à luz, maravilhava-me a forma como a terra em torno daquele início que procurava o sol tinha sido mudada e naquele estático instante era como se a planta crescesse a um ritmo perceptível aos meus olhos e essa força se visse a esses olhos. Mas nunca como agora. Por detrás de muitas das portas dos corredores da maternidade um aparelhozinho amplia os sons dos corações dos bebés dentro de um pequeno mar ainda dentro das barrigas das respectivas mães. Através desse pequeno mar transmitem-se sons que lembram o bater rápido e ritmado dos pés para se avançar no mar grande. Fazer estes corredores às horas calmas que vêm com o fim do dia, quando já ninguém espera coisa nenhuma por estas bandas e a luz já é baixa, revela-se um verdadeiro espanto. Eu desacelero e deslumbro os tímpanos que também acho estarem no meu peito e lembro-me e acredito que “cada criança, ao nascer, nos traz a mensagem de que Deus ainda não perdeu a esperança no Homem”. E a Vida com “V” maiúsculo fascina-me e espanta-me, desde que me conheço, sob todas as formas… Mas nunca como agora. Tão frágil e tão robusta. Tão enigmática, tão única e e tão irrepetível. Tão dom em si mesma.
* * *

terça-feira, dezembro 02, 2008

(untitled)

Sorrio porque estas coisas da mãe-natureza me dão sempre vontade de fechar os olhos, abrir os braços e inpirar fundo ao mesmo tempo que estendo um sorriso na boca. E acho, sempre que o faço, que inspiro ou sol ou mar ou flores ou chuva ou descampados inteiros e que tudo me cabe no peito. E dou graças.
Um bom dia e um refrão.
* * *
"Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar.
Enquanto houver estrada para andar, enquanto houver ventos e mar, a gente não vai parar.
Enquanto houver ventos e mar."

quarta-feira, novembro 19, 2008

Earth Water

Chegou a Portugal, através dos hipermercados Continente, o projecto Earth Water, já está à venda e é água.
É também o único produto comercializado no mundo com o apoio do UNCHR (Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).
Sob o lema you never drink alone - já que comprar uma embalagem de Earth Water equivale a dar de beber a um refugiado durante um dia - a Earth Water é uma água mineral, ambiental e socialmente resposável, cujo lucro reverte na sua totalidade a favor de programas de gestão de água nos países em desenvolvimento. São objectivos da Earth Water e do seu jovem fundador de nacionalidade canadiana, Kori Chilibeck:
Vender água engarrafada com o conceito de responsabilidade social ao mundo dito desenvolvido, fazendo reverter 100% dos lucros a favor do UNCHR, que serão usados em programas de abastecimento e tratamento de água para consumo nos países em desenvolvimento, onde todos os dias cerca de 6000 pessoas morrem devido à falta de água potável, 80% das quais crianças. Além disso pretende-se que seja um meio de sensibilização da comunidade mundial para o problema da escassez de água potável no nosso Planeta Azul...
Toca-nos.
Earth Water aqui.

segunda-feira, novembro 17, 2008

Os Madredeus tinham uma música chamada "Coisas Pequenas" que dizia assim...

Coisas pequenas são / coisas pequenas / são tudo o que eu te quero dar / e estas palavras são / coisas pequenas / que dizem que eu te quero amar. / Amar, amar, amar / só vale a pena / se tu quiseres confirmar / que um grande amor não é / coisa pequena / que nada é maior que amar. / E a hora / que te espreita / é só tua. / Decerto, nao será /só a que resta; / a hora / que esperei a vida toda, / é esta. / E a hora / que te espreita / é derradeira. / Decerto já bateu / à tua porta. / A hora / que esperaste a vida inteira, / é agora.

sábado, novembro 08, 2008

Intrigam-me os pombos em Lisboa e o coração dos Homens

Em Lisboa há pombos de todos os cinzentos que se conhecem: cinzento claro, cinzento escuro, cinzento cinzento, cinzento arroxeado, cinzento esverdeado, entre outros cinzentos. Aninham-se aos meus pés com o papo já cheio das migalhas que ainda caem das mesas. Quem os vê, agora, não imagina como labirintavam ainda há pouco entre os pares de pés dos passinhos agitados das pessoas que por aqui passam. Se reduzir a escala as pessoas são os pombos e os pombos são as migalhas que caem das mesas e não há pombos para essas migalhas e as migalhas crescem à medida que caem e são, por fim, estorvos aos pés agitados que se sucedem neste canto da estação. Santa Apolónia. Pombos. Muitos pombos que subitamente se achegam (como diz a senhora que se sentou ao meu lado e que faz cair do guardanapo migalhas aos pombos). Aquele fica sem nada, acrescenta. E a migalha do outro é motivo de zaragata entre pombos que esvoaçam baixo e levantam penas e pó e migalhas no ar. Alguém devia dizer a estes pombos que o lugar dos pombos é nos jardins e que as estações de comboio são lugares das pessoas. E, a responderem, alguém deveria pensar trocar migalhas no chão da estação por lugares cativos nos jardins e os jardins seriam das pessoas e os lugares das pessoas seriam dos pombos. Eu cá diria: Senhor Pombo, consta-me que não se importaria – para não lhe dar hipótese - de arrulhar coisas bonitas à sua amada no chão de Santa Apolónia em troca de fartas migalhas. E, uma vez assentida a troca, alguém deveria propor aos pombos que cedessem as asas em troca do entendimento, que agora me davam mais jeito as asas sem rumos do que os rumos sem asas. Tenho para mim que os pombos, fartos da sua condição de bibelots nas prateleiras das fachadas dos edifícios, aprovariam de bom grado a troca.
E teríamos a exclusividade dos bancos dos jardins. E dadas asas aos corações dos Homens teríamos exclusividade nos ramos das árvores por cima dos bancos dos jardins e não haveria mais ponte nem haveria mais estrada nem mais lua nem mais estrelas nem mais das coisas que unem o que só não está encostado mas está rente. Inspiro com o diâmetro todo do meu peito. Fecho os olhos e passa um filme na parte de dentro das minhas pálpebras. No filme - o tal filme - há uma caixa que abro e não tem fundo mas tem, até cima, dias dentro, como eu tenho, até cima, sol por dentro. E não sei já se a caixa é caixa ou se a caixa é peito e se o conteúdo da caixa são dias ou desejos ou dias muito desejados. Mas a caixa abre-se aos meus olhos que estão por dentro dos olhos fechados e a esses olhos abertos depõem-se os portões de todos os jardins de Lisboa e alinham-se, de cada lado, todos os dias em todos os bancos, junto a todas as fontes, sob todas as fases da lua, como se se alistassem prenúncios e possibilidades de felicidade infindas.
Quero um dia para plantar uma árvore num jardim por precisar de um dia para aconchegar-lhe as raízes no solo. Quero um dia para imprimir essa Primavera nas palmas das mãos e um dia para regar essa árvore nesse jardim. Um outro dia para ver brotar as primeiras folhas e ainda outro para esperar pelos frutos que nascem depois de caírem as flores que vêm depois das folhas. Um dia para ver amadurecerem-se os frutos. Outro ainda para ver amarelarem-se as folhas e um outro para ver essas mesmas folhas cair. Um dia para caminhar sobre essas folhas e imprimir o Outono nas palmas dos meus pés chatos. Um dia para ver encarquilhar-se-lhe a casca e um outro para ver surgirem-lhe os líquenes. Quero estações a sucederem-se ao ritmo a que crescem as árvores e árvores que crescem ao ritmo a que vão chegando as estações. Quero dias a seguirem-se ao ritmo a que a lua cresce e mingua no céu e abraços compassados com a queda das folhas secas na caixa que não tem (ao) fundo. E nesse fundo quero um piano.
Quero dias, (de) Sol. Quero todos os dias.

terça-feira, outubro 28, 2008

Porque sim.


Oh, kiss me beneath the milky twilight
Lead me out on the moonlit floor
Lift your open hand
Strike up the band and make the fireflies dance
Silver moon's sparkling
So kiss me.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Quality time.

De repente, os olhos são palavras

Quem fui? O que fui? O que somos?
Não há resposta.
Passámos. Não fomos. Éramos.
Outros pés, outras mãos, outros olhos.
Mas aprendi muito com a grande maré das vidas,
com a ternura da vista em milhares de olhos
que me viam ao mesmo tempo.

Pablo Neruda
10/10/08 - Margem Sul
En el mundo habrá un lugar para cada despertar un jardín de pan y de poesía.

sexta-feira, outubro 03, 2008

...

Preciso, às vezes, de uma certa luz que há a uma certa hora de certos dias - também não a todas as alturas do ano - num determinado sítio.
É por agora, penso, que o milagre acontece e as coisas tomam cada qual o seu tom pastel e alguém pinta o quadro mais sublime com as cores que julgo serem as minhas. As que os meus olhos mais apanham. As mais profundas.
É por agora, penso, imediatamente antes das maçãs do rosto me ficarem frias e o nariz me começar a pingar.
É por agora, penso, quando as gaivotas tomam a praia em dias como o de hoje, quando há nuvens brancas e baixas e sol. Um sol grande e a pôr-se. Um sol tão grande que parece perto.
É por agora, penso, por esta hora, que o milagre se dá.
De tantas vezes ver adivinho. Estou longe e adivinho o milagre a dar-se.
E se não tenho tempo de arrefecer as maçãs do rosto encardidas do sol da tarde, se já não fico até o nariz me pingar, passo a ponte com esta tela encaixilhada no espelho retrovisor e contento-me.
São dezanove horas e doze minutos e o sol não deve ainda sequer roçar a cordilheira de nuvens que estão pousadas no horizonte.
Dou-lhe quatro minutos. Dou quatro minutos ao sol e este pousa, enfim.
Sei que há no tempo que estas coisas demoram a paciência amorosa dos artistas.
É agora que as nuvens ficam da cor que as palmas das mãos têm quando, dadas, se aquecem. Uma cor que não puxa nem mais ao beije, nem mais ao roxo, nem tão pouco ao rosa e enquanto penso nisto destilam-se as cores de todas as coisas à minha volta.
E há gaivotas que se apossam da areia ao fundo e à minha esquerda, no quadro. São as que contemplam comigo o milagre. Há as que fazem o milagre, também. Vão e vêm, vagarosas, com a pouca ondulação que presumo que faça agora.
Penso que deve restar-me pouco mais do que meio sol e é agora do céu a cor das mãos que se estão a dar e as nuvens são da cor dos meus pés molhados e ao frio que daqui a pouco me vai arrefecer as maçãs do rosto e fazer-me pingar do nariz. E neles revelam-se, agora, todas as pedras com que no tempo se faz a areia. Brilhantes, pequenas, dão outra graça às minhas unhas e há um alaranjado, que se apura com o sol a pôr-se, nos meus ombros, nos meus pulsos, nos meus joelhos, nos meus tornozelos. Talento do artista consumado no ângulo da luz.
E por haver artista julgo que volta e meia me passa para as mãos as paletes e espera que me desembarace. São as cores do meu tempo. Pastéis, esbatidas.
Descuido-me e também já eu sou tela nas suas mãos e com o sol já escondido por trás das nuvens o alaranjado, antes nas minhas formas, é agora contorno brilhante das nuvens cinzentas que amuralham o sol. Tão brilhante que diria que algo acontece ao sol por esta altura, atrás das nuvens. A última pincelada. Agrada-me.
Sou eu, agora, das cores pastel que desceram do quadro e só assim faço mesmo meu o milagre do fim da tarde a uma certa hora de certos dias, também não a todas as alturas do ano, num determinado sítio.
Todos os sentidos me tocam as cores e aos olhos do artista sou do tom do fermento que leveda, do cheiro da água que se perde no ar do fim da tarde, do sabor do mar que seca ao ar na minha pele, dos sons crepitosos da espuma, das conversas indecifráveis entre as gaivotas, das ondas que rebentam aos meus pés, da cor das nuvens, ao frio.
Fica a faltar-me o tacto ao toque das mãos que, dadas, se aquecem e tomam a cor que têm as nuvens não roçadas, por enquanto, por um sol que é tão grande a ponto de parecer pôr-se perto.

sexta-feira, setembro 19, 2008

"Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiii... a minha vida!"

Tenho umas saudades de escrever. Aqui.
Logo. Amanhã. Ou além. Vou escrever.
Talvez pudesse o tempo parar. Quando tudo em nós de precipita. Quando a vida nos desgarra os sentidos. E não espera, ai quem dera. Houvesse um canto pra se ficar. Longe da guerra feroz que nos domina. Se o amor fosse um lugar a salvo. Sem medos, sem fragilidade. Tão bom pudesse o tempo parar. E voltar-se a preencher o vazio. É tão duro aprender que na vida. Nada se repete, nada se promete. E é tudo tão fugaz e tão breve. Tão bom pudesse o tempo parar. E encharcar-me de azul e de longe. Acalmar a raiva aflita da vertigem. Sentir o teu braço e poder ficar. É tudo tão fugaz e tão breve. Como os reflexos da lua no rio. Tudo aquilo que se agarra já fugiu. É tudo tão fugaz e tão breve.
MafaldaVeiga, Fragilidade

quarta-feira, julho 02, 2008

sexta-feira, junho 20, 2008

Sem título.

Há ocasiões, há alturas, de tempo e de serem altas demais para me atirar delas, em que me vem a cobardia de querer de volta o ninho que conheço às cegas, o asilo que há nos lugares pequenos, a água nos ouvidos que dilui os sons, a posição enroscada que resguarda o que é mais íntimo, o que é mais frágil, o que quero intacto.
Quero o útero primeiro. A Tuas duas mãos em concha à beira do planalto alto. A possibilidade de ficar sempre até saber bater as asas.
E nesses momentos corro atrás dos lugares onde mais Te encontro. Estás nos pinheiros de flores simples, singelas. Nos animais que os habitam, no seu canto. E estás nas pinhas que acomodam sementes, possibilidades imensas de novas árvores. Estás nas copas que não deixam o sol ferir os olhos. No santuário onde um colo me espera sempre que o procuro. E quando caminho, se me der conta, estás nas agulhas que se quebram e me dão a certeza de encetar de novo o caminho para o meu caminho.
E então volto-me para regressar. E assim que me volto sou eu o útero primeiro, a árvore que abriga e oferece os sons alegres, que acomoda todas as possibilidades. E sou de novo Teu santuário nos dias que vão correndo, lugar para Ti. E é em mim que Te procuro, e para Ti dentro de mim que corro, quando se abre, ao sol que fere os olhos, o que é mais íntimo, o que é mais frágil, o que quero intacto.

domingo, maio 25, 2008

Por Te revelares.

Há um Deus e um Cristo que nas palavras brancas de tão puras e sinceras dele são amor e sentido para a Vida que se revelam nele mesmo que é o miúdo que há entre quarenta e um de Espírito Santo ainda fresco que não baixa os olhos que se levanta e se chega à frente para responder à provocação do bispo e que sem que a voz lhe trema por um instante que seja diz que Tu és o Amor que és o Perdão que és a infinita possibilidade de se voltar atrás para se fazer bem feito com os olhos postos em Ti exemplo da maior das entregas e então nele para nós...




...revelas-Te!

domingo, maio 18, 2008

Hum... escolho...

"Nada te espanta, nada te encanta, nada te tomba ou te levanta, sem passar dentro de ti."

"Tu és a escala, a mão que embala. Tomas bem conta de ti. Tu és a escala, a mão que embala. Tens um rumo a seguir."

"E nada te atrasa, nada te arrasa, nem que no céu percas uma asa. Vais pegar de novo em ti."


Sobre Jorge Cruz:

Nasci na Praia da Barra, no seio de uma família descendente de padeiros e guardas fiscais. O meu pai era treinador de futebol e a minha mãe cozinheira de chanfanas. Fiz a escola primária num colégio de freiras onde fui introduzido à fé e à religião. Aos fins-de-semana visitava militantes do PRP na prisão de Custóias. Com 10 anos, parti para Angola. Estudei na Escola dos Flamingos Cor-de-Rosa, Lobito, Benguela. Fui aprendiz de pesca em mar-alto sob vigilância de militares cubanos. Iniciei o treino em ginástica desportiva com o campeão mundial russo Lev Smedianov, embora a composição de refrões pop tenha afectado o meu rendimento. De regresso a Portugal, e já depois da morte de José Afonso, vivi na Charneca da Caparica, escrevi letras de hip-hop e formei um duo com o guitarrista Rui Jorge Abreu. Aos 15 anos, voltei à Praia da Barra onde celebrei casamento com uma jovem fotógrafa praticante de body-board. Fui basquetebolista. Li os existencialistas e formei o power-trio Superego que gravou em 1998 o disco "Quem Concebeu o Mundo Não Lia Romances" aclamado pela crítica por ter capa sépia. Ao vivo os Superego abriram para Sérgio Godinho e Jorge Palma e podem ser acusados de ter interrompido músicas para baixar do palco e participar em rixas. Com o segundo disco "A lenda da Irresponsabilidade do Poeta" (2001) fecharam a sua história inscrita num manifesto cómico-radical que não lhes granjeou amizades. Pelo meio editei 300 exemplares de canções acústicas gravadas em cassete baptizadas de "O Pequeno Aquiles". Licenciei-me em psicologia. Assinei os papéis de divórcio e fui tocar nas ruas de Barcelona e Santiago de Compostela. Estagiei com o músico guineense Oli Silva. Formei uma Fanfarra de música tradicional portuguesa de fusão. Dormi na Lagoa do Fogo e ouvi o "Time Out Of Mind". Fui investigador na Universidade do Porto, àrea de feminismo e psicologia política. Em 2003, gravei o álbum "Sede" que viria a ser editado pela NorteSul. Dediquei-me à escrita de short-stories e romances de amor. Na primavera de 2006, formei 4 bandas e fui para a Sra. da Hora gravar "Poeira", colecção de 11 canções que conta com a colaboração de alguns dos músicos portugueses de minha predilecção nas áreas do rock, jazz, reggae e música tradicional. Esperei pelo S. João para me despedir dos hospitais portuenses e mudei-me para Lisboa onde me iniciei nas profissões de bartender, porteiro e ensaísta. Sou Jorge Cruz, 32 anos, vagabundo amador, alquimista, escritor de canções.

http://www.myspace.com/jorgecruzpoeira

sexta-feira, maio 16, 2008

(sonhei)

"A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
Cheguei-me a ti disse baixinho "olá"
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste."

Sérgio Godinho


domingo, maio 11, 2008

Da razão de haver pardais no lugar de andorinhas, nas traves do alpendre, este ano.

Quisesse o tempo criar-te um espaço que se abrisse só com a intenção de te trazer para dentro da minha casa, como se fosses o desconhecido mais confiável que passa a esta hora da (minha) noite. Porque tenho para mim - que vou sendo com tempo - que do tempo que nos cabe só arrecadamos realmente os desconhecidos certeiros que convidamos para o nosso lar. Se os sentamos à mesa que temos no canto que é o mais agradável, se lhes damos a beber o melhor chá onde ensopem as melhores bolachas, com a manta mais quente sobre os joelhos, fazemos dos piores acasos os nossos mais ilustres hóspedes.
Há que impedir-lhes a entrada. Correr com eles, se for preciso.
Ainda que com o Tempo passem à nossa porta, de braço dado, o Medo com a Angústia, atrás de quem sigam a Desilusão e o Desencanto, envaidecidos de sua Tristeza, havemos de apressar-nos a apresentar-lhes o Amor, o Entusiasmo e a Alegria, que estarão para surgir no outro passeio da estrada e que seguem, de mãos dadas, para despachá-los sem lhes darem tempo. E hão-de vencer-se discórdias no tempo que dura estender um sorriso na boca. Crê quando digo que hão-de vencer-se guerras nas notas dos nossos risos.
Se soubermos onde guardámos as chaves que abrem as portas, se as portas abertas disserem da nossa entrega, se o tempo que entrar sacudir os pés e carregar para dentro os momentos em que construímos verdadeiramente, seremos os melhores moradores de nós mesmos, anfitriões da mais bela festa.

quarta-feira, abril 30, 2008

sexta-feira, abril 25, 2008

Onde é que eu já vi isto?!

e tu e eu a descobrir o ar
não é preciso correr
não é urgente chegar
o que é preciso é viver.
Vagos 19/04

domingo, abril 20, 2008

Anda lá, Senhor!...

I

Senhor Jesus,
ensinai-me a ser generoso
a servir-Vos como Vós mereceis
a dar-me sem medida
a combater sem cuidar das feridas
a trabalhar sem procurar descanço
a gastar-me sem esperar outra recompensa,
senão saber que faço a Vossa vontade santa.

Ámen.



II

eu sei que somos muito mais
se nos olharmos tão fundo de frente
se a minha vida for por onde vais
a encher de luz os meus lugares ausentes
é que eu quero-te tanto
não saberia não te ter
é que eu quero-te tanto
é sempre mais do que eu te sei dizer
mil vezes mais do que eu te sei dizer

mafalda veiga


segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Prárrebitar(es)

"à procura, procura do vento. Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero. Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de vencê-lo mais uma vez e sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal."
José Luis Peixoto

sábado, fevereiro 23, 2008

Quando digo...

"É impossível!..."

"Tudo é possível."
(Lucas 18:27)
Um bom dia.

sábado, fevereiro 09, 2008

É(s) tão bom!

Vale a pena ver castelos no mar alto, vale a pena dar o salto...

É tão bom uma amizade assim, ai, faz tão bem saber com quem contar.

Eu quero ir ver quem me quer assim.

É bom pra mim e é bom pra quem tão bem me quer.

Vale a pena ver o mundo aqui do alto, vale a pena dar o salto!

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

E eles?...

Ela... Em cada gesto perdido, tu és igual a mim. Em cada ferida que sara, escondida do mundo, eu sou igual a ti. Fazes pintura de guerra que eu não sei apagar. Pintas o sol da cor da terra e a lua da cor do mar. E ele... Em cada grito da alma eu sou igual a ti. De cada vez que um olhar te alucina e te prende, tu és igual a mim. Fazes pinturas de sonhos, pintas o sol na minha mão. E és mistura de vento e lama entre os luares perdidos no chão. E ela... Em cada noite sem rumo tu és igual a mim. De cada vez que procuro, preciso de um abrigo eu sou igual a ti. Faço pinturas de guerra que eu não sei apagar. E pinto a lua da cor da terra e o sol da cor do mar. E ele... Em cada grito afundado eu sou igual a ti. De cada vez que a tremura desata o desejo tu és igual a mim. Faço pinturas de sonhos e pinto a lua na tua mão. Misturo o vento e a lama, piso os luares perdidos no chão.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Tem dias.

Há plásticos pretos nos postes dos candeeiros e luto académico na faculdade.
Um pé fora da porta e dá para perceber do ar que é quente e húmido e do céu cinzento está para chover. Água, ou assim. Quem dera, respostas.
Desço a Rua das Pretas, dói-me a cabeça e devo ter má cara porque ouvi um “Jeitosa!”, baixinho, entre dentes, de um sujeito, de bigode, escuro de sujidade e barba mal desfeita que se cruza comigo no passeio. Já dizia, há muito, a música: “São os loucos de Lisboa…”. Ainda eu não sei o quanto.
Estou a faltar a uma aula teórica sobre fármacos que modificam a transmissão opiácea e não me pesa.
Hoje saí de casa ainda a tempo de ver apagarem-se, de uma vez só, todas as lâmpadas dos postes de iluminação, ainda sem haver grande claridade. Não que hoje tivesse havido, de todo, grande claridade. Tem dias.
Resolvi-me, ainda agora, a voltar para casa de autocarro. O metro exige mais de mim do que hoje já me disponho a dar. Subo a Avenida da Liberdade. Não toda. Vou de phones com a Susana Félix a dizer-me que “enquanto vergo não parto, enquanto choro não seco” e há turistas chineses, a sorrir, de mochila às costas, na paragem do autocarro que entretanto chega.
Entro, valido o passe, há muita gente em pé e, com as mãos cheias de tralha, mando com o guarda-chuva em alguém que acaba a balbuciar meia dúzia de responsos.
Sigo e há dois pares de lugares vazios lá no fundo. Abro caminho e sento-me e há tanto trânsito e eu passo pelas brasas. Algumas paragens a seguir, não sei já quantas, entra um homem. Gordo, cabelo grisalho desalinhado. Aspecto geral normal apesar de descuidado. Idade aparente de uns 40 anos.
Aproxima-se para se sentar atrás de mim. Tem, agora mais de perto, caspa na camisola azul de gola redonda. Por todo o lado.
Senta-se, vasculha nuns sacos de plástico, rabisca umas coisas num caderno e quando não espero “Olhe, posso pedir-lhe uma informação?”. Eu “Claro, diga”. Tira, do saco, um sapato verde-escuro, acalcanhado e de atacadores. Não dou conta e ele, meio debruçado sobre o banco, aproxima de mim o sapato para que eu pudesse ver-lhe a palminha clara. Ele, arrastado, como se tivesse mimo na fala: “Isto está sujo ou está limpo?”. E eu “Está limpo!”. E ele “E é para sujar?”. E eu “Não, não é para sujar”. “Muito obrigado!”, “De nada.” e o sapato volta ao saco.
Hoje saí de casa ainda a tempo de ver apagarem-se, de uma vez só, todas as lâmpadas dos postes de iluminação, ainda sem haver grande claridade. Por esta altura já estão, outra vez, acesas. Dói-me a cabeça e não vejo a hora de aterrar na cama. Já não devo ter má cara. O caminho a pé até casa é tranquilo e, só por hoje, não finto os verdes e vermelhos nas cinco passadeiras consecutivas que habitualmente me consomem a paciência.
Hei-de descalçar-me e , a sorrir, analisar as minhas palmilhas. “Isto está sujo ou está limpo?”, “Está limpo!”. “E é para sujar?”…
“Não, não é para sujar”. Mas também tem dias.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

31 do 12?... E foi Dezembro!

E foi Dezembro - Luis Represas
***
E foi Dezembro. Dito em tua voz. Que as minhas mãos colheram devagar. E foi Dezembro. Escrito quando a sós tudo disseste quase sem falar. Foi um palco vazio a acontecer. No frio que se ergueu dentro de nós. Uma distância. O mar que se estendeu. A separar da minha a tua mão. E foi Dezembro. Inteiro. A anunciar a solidão dos dias por nascer. E foi Dezembro. À chuva. A reviver as pedras. E os rios. E os luares. Os nomes que vestiam os lugares. E os sonhos repartidos que não fomos. A coragem nascida de aceitar a verdade de ser o que hoje somos. E foi Dezembro. Vivo na roseira. Despida no silencio do jardim. E foi Dezembro. Ainda na cegueira das asas de uma ave que há em ti. Foi um tempo de amantes a aprender que não deve esquecer-se o verbo amar. Ou um inverno. Apenas. A perder-se da primavera do primeiro olhar.
* * * * * * * * * * * *
(Doze passas por doze não escusados Dezembros em 2008!)

domingo, dezembro 23, 2007

(Tenho para mim que...)

Os Búzios - Ana Moura

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Are you anybody's favorite person?

... tenho-me perguntado.

sábado, dezembro 08, 2007

Actualização

...mas torces o nariz e lá se vai o sol...

domingo, dezembro 02, 2007

Discos Pe(r)didos

Meu caminho é cada manhã / Não procure saber onde estou / Meu destino não é de ninguém / E eu não deixo os meus passos no chão / Se você não entende não vê / Se não me vê não entende / Não procure saber onde estou / Se o meu jeito te surpreende / Se o meu corpo virasse sol / Se minha mente virasse / mas só chove e chove / Chove e chove / Se um dia eu pudesse ver / Meu passado inteiro / E fizesse parar de chover / Nos primeiros erros / Meu corpo viraria sol / Minha mente viraria sol / Mas só chove e chove / Chove e chove

sexta-feira, novembro 02, 2007

"With every waking breath I breathe, I see what life has dealt to me"


... o amanha é sempre uma descoberta fascinante, repleta de cheiros, de cores, de emoções, de vida.
Não tenhas medo de não ver o que está depois das tábuas; o mar que hoje é revolto amanha é calmo e sereno, com um caminho bonito e único, ali, descoberto para ti e para esse coração doce e sereno que tu tens.
Respira e sente quão agradável é cada sensação por que passamos na longa estrada ...
P.G. (*)
=)

segunda-feira, outubro 29, 2007

Acção de Graças

Gosto quando a moleza própria do cansaço típico dos fins dos dias que, alegremente, cansam me embala a escrita. É sempre sinal de que fui tirando o melhor de cada uma das partes do todo em que me dei com os outros. Ter-Te sempre tão perto a ponto de sentir-Te a mão que me impele para diante para que dê os passos e tome as decisões.
Hoje agradeço porque “nada é coincidência, tudo é providência”e por chegar a ser impressionante a forma como Fazes suceder os sinais, elucidar as pistas e iluminar os caminhos. Por quem segue comigo longe, perto e assim-assim. Pela dose extra de energia compatível comigo, pelas surpresas feitas amigos que já faziam falta. Porque sempre que passamos por achar que não há para onde ir nem que fazer, porque nem sempre sabemos bem quem somos nos mundos tão grandes e frios onde a missão-vocação de cada um exige que estejamos, Pões sempre, em nós, qualquer coisa que nos faz querer… querer ser alguém. E aí a Vida deixa de poder parar, a viagem é sem regresso e vamos como ventos: com tudo para dar, sem tempo a perder e a saber que podemos e vamos chegar onde Tu nos queres levar.
Obrigada pelas caras novas e pelo acolhimento. Senti-me num grande e apertado abraço cor azulorbis. Obrigada pelos exemplos de dedicação e de esforço despretensiosos, pela fonte de Amor que brotou hoje no meio da cidade que ficou, há pouco e por pouco, para trás. Por me Renovares a vontade de “me consumir como vela que arde no altar, consumir de Amor. Só por ti, Jesus”. Por querer ser aquilo que Queres e saber que “sozinha eu não posso mais viver”.
“Juntos podemos e vamos mudar o Mundo” é a única frase que, repetida insistentemente, não se gasta nem se desvanece. Queiramos nós!
Amén.

domingo, outubro 21, 2007

Dia Mundial das Missões


TODOS EM MISSÃO

Onde quer que estejas. Seja qual for a tua idade e profissão. Cultives os sonhos e projectos que cultivares. Tenhas as aspirações que tiveres. A missão é a força dinâmica da vida a que estás chamado.
Estar em missão é sentir a urgência do amor com que Deus ama o mundo. É deixar-se envolver por Jesus Cristo na sua paixão pela humanidade. É viver em sintonia com o Espírito que, de forma irreversível, quer suscitar em nós um “coração novo” e renovar a face da terra, suas estruturas e organizações.
Há ainda muito a fazer. Há horizontes a prosseguir, caminhos a percorrer, iniciativas a promover.
Os problemas parecem maiores do que os esforços empreendidos. Só a fé alicerçada no amor alimenta a esperança num mundo melhor, numa sociedade digna da condição humana, numa Igreja que, graças ao Espírito Santo, permanece fiel ao mandato de Jesus Cristo e o prolonga no tempo por meio de nós.
A coragem de evangelizar é a medida do amor. Agir com o coração em benefício de todos, sobretudo dos mais necessitados. Dando e recebendo o que há de melhor na vida: Colaborar com Deus no projecto de salvação; estar disponível para a missão, pronto para servir sem hesitação, firme na convicção.
Esta é a fonte da nossa alegria. Esta é a razão da nossa maior responsabilidade. Colaborar com Deus para que Jesus realize a sua obra e todos possam descobrir e apreciar o amor com que somos amados.
Então, encher-se-ão de brilho os olhos da humanidade inteira, de contentamento os corações amargurados, de alimento os estômagos atrofiados, de esperança as aspirações silenciadas, de harmonia o universo, liberto de tudo o que desumaniza e aberto à plenitude que, sorridente, nos atrai à família dos filhos de Deus reunidos à mesa do Pai comum a celebrar festivamente a sua vida em família.
O serviço à missão reveste muitas e atraentes modalidades. Umas já estão experimentadas com êxito, outras terão de ser criadas pela “fantasia da caridade”. É o desafio que o Espírito nos faz por meio das situações provocantes que exigem soluções concretas
A oração é o primeiro e principal contributo missionário. É tempo de rezar mais e, sobretudo, melhor. Procurar a sintonia e o ritmo do coração de Cristo. Escutar o desabafo que sempre nos segreda: Vim para que tenham vida em abundância. Ide até aos confins da terra e comunicai esta boa nova a todas as pessoas que Deus ama. A vós, a ti confio esta missão, fruto do meu amor e prova da tua fé.

Pe Georgino Rocha
Obrigada Karina!

quinta-feira, outubro 18, 2007

Enquanto houver.

Enquanto houver um sorriso
Enquanto houver um fascínio
Vento a soprar-nos na cara
E a roupa a tocar na pele
Enquanto houver companhia
Nos avessos do caminho
Podem rasgar-nos a alma
Que há-de sobrar poesia
Enquanto lançarmos sonhos
Com a força da maré
E desvendarmos o mundo
Entre incertezas e fé
E as coisas oscilarem
Ao segredar-se uma jura
Podem rasgar-nos alma
Que há-de sobrar a ternura
Enquanto houver um disparo
Que rompa um silêncio vão
Enquanto o tempo doer
Ao escorregar-nos das mãos
E trocarmos a desculpa
Pela culpa da verdade
Podem rasgar-nos a alma
Que há-de sobrar-nos vontade
Letra: Mafalda Veiga

sexta-feira, outubro 12, 2007

Das coisas que Deus me deixa ditas atrás das orelhas.

Hoje estava capaz de sair por aí. Meter a quinta, não sair dela e, desassossegada, largar a procurar, do vento e do salitre, o que de um faz com que o outro se cole ao cabelo e à pele, arrefeça as pálpebras e salgue mais as lágrimas.
Porque, por hoje, carente, procurava com exaustão o afago num gesto, o abraço no enleio de uma aragem soprada com mais força, o conforto num ninho improvisado entre pedras, a acalmia do mundo, por esta hora, a perscrutar alguma esperança, o meu ansiado sentido num astro caído com rumo predestinado, o meu futuro. O que preciso, agora, neste Teu acalento universal.
Hoje quero para mim muito mais do que o que tenho. Quero-me mais do que a mim só. Quero-me a mim Contigo a baralhar as leis da Vida e a fazer crescer, sem ver-lhes depois as mãos, os meus braços. Quero retribuir, no inadiável hoje, o Amor que me tens. Adubar o coração, porque também precisa, e esticar infinitamente a vontade que tenho de Ti.
Quero a graça de um colo onde caiba o Mundo e a exiguidade de uma testa que deixe que Te sobeje o ombro.
Quero-me ao lado, alada, colada. Comprometida, incontida e desmedida.
Sempre.